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Cachorrinho

17 de Dezembro de 2015, por José Antônio

Eu estava saindo do banco quando fui surpreendido por dois olhos que me olhavam por baixo, atentos a todos os meus movimentos. Atravessei a rua e os dois olhos me seguiram, com se estivessem esperando alguma coisa de mim, algo que eu tivesse prometido.

Achei simpático o cachorrinho e estalei os dedos. Pronto. Acabou ali o meu sossego. O cãozinho veio que nem um raio. Estacou sentado à minha frente, olhando para cima, inquieto.

Esse cachorro pensou que eu iria lhe dar comida – ponderei, já andando.

O cachorrinho veio atrás, me cobrando com os olhos, insistentemente. Para me livrar dele, apertei o passo e atravessei a rua. Ele, então, me olhando de longe, desistiu. Voltou-se e foi embora cabisbaixo, cheirando o chão. Devia estar com fome um tempão e tinha visto em mim a salvação do seu estômago, pelo menos para aquele dia.

A minha consciência ganiu e resolvi fazer uma boa ação. Parei numa lanchonete, peguei um petisco e fui atrás do cachorro. Não o vi mais em frente ao banco. Olhei ao redor, debaixo dos carros, dentro das lojas... nada.

Olhei mais uma vez e pude afinal vê-lo ao longe, virando a esquina lá na frente. Saí em disparada para alcançá-lo, mas a disputa era desigual: enquanto eu corria com duas pernas, ele corria com quatro. Quando cheguei à esquina, só vi um lixo revirado. Ele estivera ali, procurando o que comer.

Contornei o quarteirão e o divisei mais longe ainda, indo pra não sei onde. O jeito foi pegar um moto-táxi:

– Siga aquele cachorro!

O motoqueiro me olhou desconfiado:

– Quem é que te assaltou, cara?

– Não! É cachorro mesmo. É bicho de verdade. Aquele lá... quer dizer... já não está mais lá. Anda, cara, o cachorro já sumiu de novo.

Fui encontrar o cachorrinho dois bairros depois. Tinha acabado de dar uma mijadinha no poste.

Estalei os dedos e ele levantou o olhar. Veio correndo animado em minha direção, fazendo festa. Coloquei o salgadinho no chão e, aliviado, observei o cachorrinho matar a fome. Enquanto ele comia, fui saindo de mansinho. O cãozinho poderia se apegar e eu não tenho espaço no meu apartamento.

Sabe aquela coisa de você se tornar responsável por alguém que você cativa? Resolvi não cativar para não assumir uma responsabilidade impossível.

Ou foi o cachorrinho que me cativou?

 

 ... esse cachorrinho andou lendo O Pequeno Príncipe.

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