– ... e aí, Zé, a gente estava pensando, quem sabe você não se candidata pra vereador?
– Hein?
– O partido andou discutindo sobre algumas questões, principalmente o perfil.
– Sinto muito, mas não me interesso, nunca me interessei.
– Zé, olha só a roubalheira e a mentirada que estão por todo o país. Só dá sem-vergonha. E você tem o perfil.
– Eu tenho o perfil do sem-vergonha?
– O contrário. Você tem o perfil de quem vai contra isso.
– Obrigado, mas continuo não me interessando. Quero paz.
– Você está sendo egoísta, cara. Pense no bem comum.
– Que bem? Comum a quem? Vocês ficam lá confabulando coisas a meu respeito sem nem me convidarem pra conversa. De repente, querem que eu lance uma candidatura minha. E eu que sou egoísta?
– A gente quer um nome diferente.
– E vocês vêm atrás de um que se chama Zé? Ora, nome diferente é Asterioclécio, Mantionaldo, Repciadônis... Isso é que é nome diferente.
– Estou falando de diferente no sentido de novidade. Um candidato que não nasceu aqui, mas que optou por lutar pela cidade. Um candidato que virou da terra.
– Pra mim, quem é da terra é minhoca. Esqueça essa maluquice. Além disso, eu detesto tirar retrato sorrindo. Não fico bem.
– Não precisa sorrir. É só olhar firme pro povo.
– Aliás, nunca entendi se na foto o candidato sorri pra gente ou ri da gente. Não nasci pra animador de palanque. Por outro lado, ficar sério e olhando pro povo... fico parecendo vigia de hospital. Entre um Sílvio Santos das Lajes e um rondante de nosocômio, prefiro o anonimato.
– Rondante de quê?
– Nosocômio.
– E o que é isso?
– Hospital.
– E por que você não falou hospital, como todo mundo? Pra que ser diferente?
– Gozado, você não estava procurando alguém diferente?
– Diferente sim, maluco não.
– Você falou certo: maluco. Isso mesmo, sou maluco. Por isso não posso me candidatar. Fale lá pro seu partido que eu sou maluco. Mais do que maluco: malouco.
– Isso é alienação.
– É consciência. Essas coisas não se resolvem assim Fica igualzinho chegar perto de uma garota e dizer: Olhe, meu bem, meus amigos e eu andamos discutindo muito sobre algumas questões, principalmente o perfil. E você tem o perfil pra ser minha mulher. E quando estiver no altar comigo, não precisa sorrir: é só olhar firme pro povo.
– Chega! Não aguento mais tanta bobagem. Você é muito estranho.
– Taí: a Câmara não iria aceitar um cara estranho por lá. De cara, iriam colocar uma plaquinha lá na porta: “Proibida a entrada de pessoas estranhas”. Bingo! Tô fora!