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Candidato

11 de Outubro de 2010, por José Antônio

– ... e aí, Zé, a gente estava pensando, quem sabe você não se candidata pra vereador?

– Hein?

– O partido andou discutindo sobre algumas questões, principalmente o perfil.

– Sinto muito, mas não me interesso, nunca me interessei.

– Zé, olha só a roubalheira e a mentirada que estão por todo o país. Só dá sem-vergonha. E você tem o perfil.

– Eu tenho o perfil do sem-vergonha?

– O contrário. Você tem o perfil de quem vai contra isso.

– Obrigado, mas continuo não me interessando. Quero paz.

– Você está sendo egoísta, cara. Pense no bem comum.

– Que bem? Comum a quem? Vocês ficam lá confabulando coisas a meu respeito sem nem me convidarem pra conversa. De repente, querem que eu lance uma candidatura minha. E eu que sou egoísta?

– A gente quer um nome diferente.

– E vocês vêm atrás de um que se chama Zé? Ora, nome diferente é Asterioclécio, Mantionaldo, Repciadônis... Isso é que é nome diferente.

– Estou falando de diferente no sentido de novidade. Um candidato que não nasceu aqui, mas que optou por lutar pela cidade. Um candidato que virou da terra.

– Pra mim, quem é da terra é minhoca. Esqueça essa maluquice. Além disso, eu detesto tirar retrato sorrindo. Não fico bem.

– Não precisa sorrir. É só olhar firme pro povo.

– Aliás, nunca entendi se na foto o candidato sorri pra gente ou ri da gente. Não nasci pra animador de palanque. Por outro lado, ficar sério e olhando pro povo... fico parecendo vigia de hospital. Entre um Sílvio Santos das Lajes e um rondante de nosocômio, prefiro o anonimato.

– Rondante de quê?

– Nosocômio.

– E o que é isso?

– Hospital.

– E por que você não falou hospital, como todo mundo? Pra que ser diferente?

– Gozado, você não estava procurando alguém diferente?

– Diferente sim, maluco não.

– Você falou certo: maluco. Isso mesmo, sou maluco. Por isso não posso me candidatar. Fale lá pro seu partido que eu sou maluco. Mais do que maluco: malouco.

– Isso é alienação.

– É consciência. Essas coisas não se resolvem assim Fica igualzinho chegar perto de uma garota e dizer: Olhe, meu bem, meus amigos e eu andamos discutindo muito sobre algumas questões, principalmente o perfil. E você tem o perfil pra ser minha mulher. E quando estiver no altar comigo, não precisa sorrir: é só olhar firme pro povo.

– Chega! Não aguento mais tanta bobagem. Você é muito estranho.

– Taí: a Câmara não iria aceitar um cara estranho por lá. De cara, iriam colocar uma plaquinha lá na porta: “Proibida a entrada de pessoas estranhas”. Bingo! Tô fora!

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