Tinha circo na cidade.
Resende Costa recebia um circo de porte – digamos – considerável. Bailarina dançava no arame, macaco fazia estripulias, trapezistas cruzavam os ares, equilibrista menosprezava a gravidade, palhaços matavam de rir, cachorrinho ensinado fazia pipi no peniquinho... Esse último era o xodó do circo. Todo mundo saía de lá comentando. E mais: leão e elefante dando as caras na República das Lajes.
Era emoção demais. E o ingresso, ó: desse tamanhinho!
Como o contágio era geral, meus alunos do Assis Resende também ficaram eriçados, todos ansiando por um lugarzinho sob a lona. Queriam ver, pelo menos, o tal do cachorrinho fazendo pipi no peniquinho.
E foram. E me deixaram. E mataram a última aula antes da prova de literatura. E fizeram uma péssima prova.
Surgiram as mais variadas justificativas para as ausências à aula, todas ligadas a problemas de saúde. Parecia que o circo prestava também serviços hospitalares. Teve gente que disse ter cortado o dedo mínimo em três lugares... deve ter sobrado somente a unha. Outra me disse ter sofrido uma tremenda dor de cabeça. Houve um que justificou sua ausência dizendo que tinha dado uma sessão de vômito. Crise de vômito ainda vai, mas... sessão de vômito? Onde teria sido a sessão? No teatro? Vai ver que compraram ingresso para ver o fulano mostrar, numa sessão, como é que vomita.
Pois é, só que na semana seguinte teve outra prova. E todo mundo afundou outra vez, pois a primeira prova era a base da segunda. Na aula em que dei o retorno da segunda prova, todos estavam na sala, inclusive os amantes do picadeiro. Comentei a prova e fiz oralmente as perguntas dela. Ninguém respondia, não sabiam nada. Claro que não podiam responder: tinham preferido o circo.
Comecei a perder a paciência:
– Vamos, gente! Respondam! Por que o romance explora esse tipo de argumento?
Nada.
Foi aí que me veio um repente e bradei, num tom de convocação geral:
– Trapezistas! Bailarinas! Domadores! Mágicos! Respondam!
Todos me olharam surpresos e a gargalhada foi geral.
Para quebrar o galho da turma, dei naquela noite mesmo um pequeno exercício valendo menos pontos para ajudar. Nem bem a turma começou, um rapaz se levantou lá do fundo com o exercício na mão. Chegou com o papel em branco para mim e me falou baixinho:
– Pode pegar. Eu não vou fazer. Questão de honestidade. Eu não deveria ter matado a aula para ir ao circo.
E foi embora.
O rapaz era honesto. Fez a porcaria e saiu-se com classe. Aprendeu direitinho com o cachorrinho que fazia pipi no peniquinho.
Com classe
13 de Fevereiro de 2012, por José Antônio