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Correio elegante

14 de Janeiro de 2010, por José Antônio

Era uma festa de quermesse, ali pelos lados do Parque do Campo. Barraquinhas, luzinhas acesas e espalhadas pelo pequeno largo, chão batido de terra, muita gente alegre e várias meninas andando sem rumo, coladas umas nas outras, soltando risinhos. Músicas e oferecimentos embalavam aquilo tudo. Mário Márcio e eu tomávamos um quentão e o Marcos comia mais um cigarrete. Noite fria de junho.

Vindo de não sei onde, um moleque serelepe me tocou o braço. Trazia um papelzinho. Correio elegante: TE ESPERO-TE NO LADO DIREITO DA CAPELA.

Continuei com o meu quentão enquanto o Marcos passava a régua no terceiro cigarrete. Não dei crédito ao bilhete, sei lá, e se fosse trote? Só que não passou nem um quarto de hora e lá veio o menino com mais um bilhete: VOCÊ NÃO VEM ?

Perguntei ao pombo-correio alcoviteiro quem estava me mandando aqueles bilhetes.

– Uai, vai lá no lado da capela que você fica sabendo.

E não é que ele tinha razão? Resposta lógica e sábia de um carteiro safado, pois ainda por cima lia as correspondências que lhe eram confiadas.

Contei aos meus dois amigos o que estava ocorrendo. Mário disse que eu devia ir, sorvendo mais um gole de quentão; Marcos apenas consentiu com a cabeça, passando discretamente um guardanapo na boca, depois do quinto cigarrete.

E lá fui eu, em busca da donzela que ME ESPERAVA-ME ao lado direito da capela. Para minha surpresa, o que encontrei por lá foi um cachorro comprido e orelhudo, que ora cochilava, ora acordava. Eu sabia que era trote.

Mas eis que chega o menino outra vez, com mais um bilhete: EU ERREI. É NO LADO ESQUERDO.

Fiquei parado. Ir ou não ir? Quem é que estaria ali me esperando ao lado esquerdo da capela? Seria bonita? Seria a companheira que o meu coração sempre procurou? Seria interessante? Continuei parado, preferi considerar algumas coisas antes. E comecei a matutar...

A bem da verdade, pensemos juntos, devia ser uma garota com problemas de orientação espacial. Confundia-se com direitas e esquerdas. Estava condenada a viver com uma fita numa das mãos para saber o que é destro e o que é canhoto. E já pensou viver com uma mulher que tem problemas de orientação espacial? A coisa já começaria lá no casamento:

– Não, amor, o padre falou pra você colocar a aliança na minha mão esquerda, essa é a direita...

Daí pra frente, o dia a dia do casal iria virar um inferno, cuja caldeira seria a cama:

– É aqui? Mas você disse que era lá... Pare, amor, isso aí é o meu dedão, você está do lado errado outra vez... Qual dos dois está sensível? O direito ou o esquerdo? Hein? O que está com um lacinho de barbante?!

Além disso, o jeito em que ela colocava os pronomes: TE ESPERO-TE. Mulher assim só pode ser possessiva e dominadora. Quer me controlar duas vezes, pela frente e pelas costas. TE AMO-TE... TE CHAMO-TE... TE QUERO-TE... TE PEGO-TE... TE AGARRO-TE... TE DEVORO-TE...

Pode parar!

Fui embora de vez. De novo com o Mário e o Marcos, preferi falar que era um trote.

Então, o Mário chamou pra ir embora, reclamando com o Marcos:

– O Migué – Mário sempre chamou o Marcos de Migué – até parece que está numa dieta de cigarrete, pô! Está reclamando de indigestão. Pudera! Só veio aqui pra comer cigarrete.

Aproveitei a indigestão do meu amigo e empurrei de leve o Mário:

– Vamos embora. O Marcos precisa de um sonrisal.

O Marcos perguntou aflito:

– Pra que lado fica a farmácia? Pra direita ou pra esquerda? Alguém aqui na festa sabe informar?

Cocei a cabeça:

– Eu não me arriscaria, Marcos.

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