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Cursinho pré-vestibular

10 de Janeiro de 2011, por José Antônio

Não me lembro de quem partiu a ideia. Só sei que a coisa foi crescendo e o monstrengo já estava formado: o tal do cursinho pré-vestibular.

Monstrengo, pois o negócio era um Frankstein. Um apanhado de professores, cada um com uma pedagogia deferente, como se fossem membros variados de corpos diversos formando um todo desengonçado e assustador. Típica inserção de Mary Shelley no terror escolar.

O cursinho tinha diretor, o que não tinha era direção. O diretor era mais conselheiro honorário do que administrador. Na primeira reunião não apareceu. Na segunda mandou um substituto. Na terceira fomos todos pra casa dele sem avisar: só assim a reunião poderia acontecer.

Durante a reunião, o diretor mais parecia um gato na piscina, de tão apavorado. Ainda mais porque já havia trinta alunos matriculados e esperançosos. Depois de muitas perguntas sem respostas, a escalação do corpo docente apareceu. Porém, faltava professor para biologia. Sugere daqui, discorda dali, até que o diretor apresentou uma solução: dentre os matriculados, havia um aluno que era fera em biologia. Então, o rapaz poderia lecionar a tal disciplina e ser aluno, tudo ao mesmo tempo, e ele teria um bom desconto em sua mensalidade.

Pobre cursinho! Já começou esquizofrênico. O aluno de biologia é aluno e não é aluno... o professor de biologia é professor e não é professor.

Todos acharam um absurdo, inclusive o diretor. Mas era a única saída, uma vez que os alunos já estavam cobrando o início das aulas. E num rasgo de estupidez conjunta, a ideia foi aceita. O corpo docente franksteiniano já estava montado.

O primeiro dia de aula foi marcado para a próxima segunda-feira. Fiel ao seu estilo social, o diretor não compareceu devido a exames médicos – a bem da verdade, ele iria a um laboratório pegar o resultado de seu exame de fezes. Assim, logo na estreia, o cursinho iria se apresentar lá sem direção.

Lá onde? Outra pergunta sem resposta. Não havia local para o cursinho funcionar. E aí veio uma lista imensa de imóveis adaptáveis: garagem, sacristia da igreja, salão paroquial, boteco desativado, casa de algum parente solitário... O último imóvel da lista era a capelinha do cemitério de cima.

Depois de algumas negociações, a Lilia Lara – então diretora – permitiu que o cursinho funcionasse no Conjurados. No primeiro dia, sala lotada. Na segunda semana, sala pela metade. Na terceira semana, apenas cinco alunos. Na quarta semana, apenas o diretor apareceu por lá, para apagar as luzes. Todos tínhamos desistido.

Já vai longe esse ano de 1986. Ainda tenho comigo a lista dos alunos. Vejo ainda o rosto ansioso de cada um em minha memória, assentados nas carteiras e querendo passar no vestibular. Vejo ainda o rosto revoltado de cada um em minha memória, postados em fila e querendo o dinheiro de volta.

O cursinho não foi pra frente, nenhum professor recebeu uma só gratificação e ainda tivemos que ressarcir os alunos.

Quanto ao resultado do exame do nosso diretor...ele estava contaminado pela Entamoeba histolytica. Em outras palavras, o cara tinha uma ameba de estimação. Mas já está curado.

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