É noite e chove. Uma chuva fina com alguns relâmpagos e poucos trovões que, apesar de tímidos, insistem em roncar. Adianto uma hora a mais em direção à minha morte. Corro o risco de morrer adiantado.
Vai começar o horário de verão.
É tempo de dar boa-noite com o sol brilhando. É tempo de ir pra mesa fingindo estar com fome. É tempo de ir pra cama simulando sono. É tempo de olhar pro relógio, dizer uma hora e pensar em outra. É tempo... é tempo... é tempo...
Houve uma época em minha vida em que eu acreditei no tempo. Depois, fui percebendo que o tempo não existe. O que existe são demarcações e convenções. O horário de verão é uma prova disso. Agora são dez horas. Amanhã, esse agora já serão onze horas. Depois de amanhã, volta tudo a ser como antes. É difícil acreditar no tempo quando os ponteiros ficam na gangorra.
O pior é que não são somente os ponteiros que ficam indo e vindo. A gente também fica pra lá e pra cá. Quando estamos nos acostumando com o danado do horário de verão, ele acaba. E lá vai todo mundo outra vez encarar a tal da adaptação.
Não vou com a cara do horário de verão. Jamais me convenceu. A saúde do país melhorou por causa dele? A qualidade do ensino e o salário dos professores aumentaram por causa desse horário? Ele melhorou o transporte público? Você passou a comer melhor por causa do horário de verão? Você passou a morar melhor?
Recuso-me a acreditar no entusiasmo amarelo da mídia ao anunciar o novo horário a cada ano. Não me sinto seduzido por míseros numerozinhos acrescidos a uma porcentagem raquítica, sempre baixa. Se teimam em manter uma coisa na qual ninguém vê benefício, deve ser porque o benefício vai pra onde ninguém vê.
O horário de verão é tão inconsistente que ele é opcional. Há regiões que não o adotam. E aí, contando com o fuso horário, o Brasil passa a ficar – nesse período – com quatro horários: o horário normal com o seu fuso horário... e o horário de verão, também com o seu fuso horário.
É o Brasil com quatro horários e um só relógio... tudo confuso horário.
E já que estamos vivendo o oportunismo malandro nas cotas das universidades, cada região com horário diferente poderia reivindicar para si a sua cota no relógio. Teríamos, então, o horário de verão, o horário de outono, o de inverno e o de primavera. Todo mundo satisfeito e ninguém sabendo quem sai ganhando.
Vai dar meia-noite.
Daqui a uns poucos minutos, vai começar o horário de verão.
Só podia mesmo começar à meia-noite, que nem filme de terror. Estou esperando o relógio da Matriz bater. Um pensamento horroroso me gela a espinha: se o horário normal, como dizem, é o horário de Deus, então... o horário de verão é o horário do capeta.
Meia-noite!
O relógio da Matriz não deu doze badaladas. Deu só uma. Em protesto.
Ele voltou
13 de Novembro de 2012, por José Antônio