Diz a lenda que o carnaval é o sonho do Pierrô. Cansado de ser rejeitado pela Colombina, Pierrô dormiu profundamente. Em seu sonho, a Colombina vivia com ele um grande amor. Uma folia aconteceu: música, comida, bebida e dança. No entanto, como todo sonho que começa, o sonho do Pierrô também acabou. Tudo fora uma ilusão. A realidade era outra. O carnaval tinha acabado.
Mas quem é que disse que o Pierrô não poderia sonhar mais? Claro que poderia! Ele sonharia nas Lajes. Levei a ideia ao Mário Márcio:
– Uma escola de samba, Zé? Já é fevereiro, o carnaval é no mês que vem.
Eu disse que havia um grupo de interessados: gente pra desenhar as fantasias, as alegorias, costureiras e marceneiro. O samba-enredo já estava no forno.
– A primeira reunião será amanhã, sábado, depois de um casamento que vai ter na Matriz. A gente vai se reunir na nossa casa mesmo.
O sábado chegou e os foliões foram vindo aos poucos. O beco estava movimentado. Anunciei o pessoal da bateria. Eles fariam um número de apresentação e saudação à escola de samba nascente. Todos se viraram e olharam por cima de uns cinco rapazes com instrumentos, mas não viram a bateria.
Os cinco rapazes eram a bateria.
Alguém soprou um apito que mais parecia um grilo rouco. Começou, então, um terrível soca-soca, cada um tocando furiosamente na (de)cadência de seu próprio ritmo. Não era uma bateria, e sim uma bateção. Quando acabaram, ouviu-se um aplauso mais sisudo do que a Quaresma. E a reunião começou.
Primeiro item da pauta: o nome da escola de samba.
– Grêmio Animado dos Tocadores da Apoteose... GRATA!
– É melhor Grêmio Entusiasmado dos Tocadores da Apoteose... GRETA!
– Pode parar! Esse negócio de Animado, Entusiasmado... onde já se viu?
– E qual é a sua ideia, então?
– Grêmio Reunido Império do Tom Afinado... GRITA!
Levantou o dedo um senhor. Falava baixinho e, segundo diziam, não havia estudado, mas era mestre da vida, muita sabedoria:
– Ói, gente, é mió ponhá Grupo Reunido das Otoridade do Tamborim e do Agogô... GROTA!
– Peraí, gente! Só falta agora aparecer Grêmio Reunido da União dos Tocadores do Arraial... GRUTA! GRATA, GRETA, GRITA, GROTA, GRUTA... já até pensei numa rima pra xingar a nossa escola.
Todos caíram numa gargalhada convulsiva. Percebi que a escola de samba estava começando a ganhar os contornos de uma ideia que não tinha dado certo. Pra evitar que a dispersão acontecesse antes da concentração, retomei a conversa. E alguém apareceu com outro nome:
– Segura aí, ó: Mocidade Independente da Juventude Animada... MIJA!
– Com um nome desse, eu não quero nem chegar perto do lança-perfume.
Mais uma gargalhada geral. A reunião foi pras cucuias, junto com a escola. Tem gente que leva pancada na cabeça e passa a ter ideias estranhas. Se a nossa escola acontecesse, seria o contrário: nossa turma teria ideias estranhas e passaria a levar pancada na cabeça.
Aquele ano de 1987 levou pancadas, como o acidente do Césio 137, a morte de Drummond, a Black Monday da queda da Bolsa de Nova York... A nossa escola seria o tiro de misericórdia! E o Pierrô não dormiu, com medo de bala perdida.