“Todas as famílias felizes são parecidas entre si.” Assim Tolstói começa o seu romance Anna Karenina. Não pretendo aqui ater-me ao romance dessa frase, mas a essa frase do romance.
Quando a parecença é muito repetida, vira igualdade. Toda igualdade muito repetida vira mesmice. Não há algo mais enfadonho do que o óbito da surpresa. Quando ela morre, seu fantasma de vez em quando aparece fazendo-se de novidade. Ridículo. Até mesmo os seus sustos são sem graça, pois é tudo previsível.
A família de Jamil Perdenari é o protótipo de um gordo álbum de felicidades. Jamil, vistoso e bem sucedido empresário, casou-se com Linda Wunderbar, filha de pai alemão e mãe italiana, radicados no Brasil. Um monumento de mulher bonita. Jamil e Linda se conheceram no Carnaval, em Veneza. Daí em diante, o namoro seguiu seu curso e desaguou numa exuberante cerimônia de casamento em Mônaco.
Nasceram dois filhos: Victor e Zuleika. Victor Wunderbar Perdenari hoje é famoso por suas ótimas gerências e aplicações no mercado financeiro. É dono de um banco em Boston. Casou-se com a filha de um senador norte-americano, proprietário de uma grande rede de TV. Victor nada em dinheiro com sua deliciosa Enya. Ah, sim, sua esposa se chama Enya. Vivem viajando pelo mundo. Já conhecem setenta e oito países. No ano que vem, pretendem ir a mais dez.
Os dois lindos e saudáveis pimpolhos do casal – gêmeos – estudam numa escola particular cuja mensalidade é astronômica. Poucos alunos em sala de aula, grandes oportunidades de progresso em Paris e saem falando cinco idiomas. Coisa para pouquíssima gente e não para gente pouquíssima.
Zuleika, a irmã de Victor, nasceu arrebatando os corações do médico, das enfermeiras e dos funcionários da maternidade, de tão linda. Cresceu e a formosura acompanhou-a. Muito estudiosa. É a típica boa moça de família. Foi miss de seu estado duas vezes, miss Brasil e iria representar o país no concurso de Miss Universo, com grandes chances de ser premiada como a mulher mais bonita do mundo. Porém, desistiu. Casou-se com Heinrich, um bonito e milionário médico alemão, detentor de uma rede de hospitais em três países. Foi sorteado com uma polpuda bolsa para desenvolver suas pesquisas. Zuleika é a vice-presidente da rede hospitalar de seu marido, o tal bonitão e rico.
Na semana passada, Jamil e Linda (pais dos irmãos Victor e Zuleika) completaram quarenta anos de casados. Como presente, os dois filhos deram aos seus pais uma casa de veraneio na Suíça. O velho casal amou a surpresa… ops!... o presente. Foi uma festa linda. Farto jantar, gente bonita e bem vestida. A alegria era a convidada especial. Houve um momento em que Jamil leu para Linda um poema que fez para ela. Concluiu dando-lhe um anel de esmeralda, pois as bodas eram de esmeralda. Linda sorriu e chorou. O casal se beijou com tanta ternura que todos ali se emocionaram e cantaram. Uma fofura só!
Tudo dentro da previsibilidade feliz das famílias felizes.
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Ai… como são chatas, leitor, as histórias dessas pessoas que nasceram com a bunda virada pra lua…