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Feliz Natal

07 de Dezembro de 2008, por José Antônio

O moço da loja foi lá pra dentro pegar a minha encomenda. Resolvi colocar moldura nuns quadros velhos. Loja de imagens de santos. Mais santos na loja do que céu. Só o Santo Antônio contei mais de trinta. Clonagem sacra!

Corri os olhos para outro canto, mais escondido. Vi lá um presépio simples, dos mais baratos. Não tinha nem boi.

Natal...

Venho ouvindo Feliz Natal em todos os natais. Agradeço, digo o mesmo e sigo meu caminho, tentando achar um estábulo onde possa colocar meu coração numa manjedoura.

Tento achar graça no Natal e acabo achando-o engraçado. Papai Noel e sua gargalhada previsível... o peru em cima da mesa, pronto para ser comido... e aí sempre aparece um que mistura saco de Papai Noel e comer o peru numa piada que só arranca riso de quem já exagerou na bebida...

Amigo oculto... caras e bocas, todo mundo sabendo quem é o amigo oculto, todo mundo sabendo o que vai ganhar, todo mundo fazendo cara de surpresa...

Lojas cheias de futuros endividados, crianças chorando porque não ganharam um brinquedo e os pais tentando convencer que o outro brinquedo é melhor... trenzinhos rodando, caminhõezinhos apitando, sininhos tocando, luzes piscando...

De repente, um cara cheio de presentes se encontra com um outro, também cheio de pacotes. Aquela complicação toda para abraçar e desejar Feliz Natal. Talvez, na confusão, um acabou levando presentes do outro.

Natal... Onde a graça?

Volto a olhar aquele presépio barato e pobre no cantinho da loja. O cara ainda não voltou com as minhas molduras. Tento tirar os olhos, mas eles se detêm naquele bebê pobre que nasceu sem berço. Seus pais o olham orgulhosos e humildes enquanto ele dorme. Tão menino. Tão Jesus. Menino, uma vez que senhor do mundo, corajoso, desapegado, coração pronto para perdoar. Jesus, uma vez que alegre, simples, cheio de idéias.

Natal... Onde a graça?

Justamente aí está a Graça! Acima do engraçado e do desgraçado, do presente e de qualquer tempo. A Graça de dormir em paz. A Graça de fazer da natureza o lar. A Graça de sofrer sem esquecer que é filho de Deus. A Graça de ser o anfitrião da festa da vida. A Graça de encontrar a pérola da humildade no lodo das vaidades.

Onde está o cara com as minhas molduras? Já faz quase quinze minutos.

Minha impaciência se acalma outra vez naquele cantinho da loja. Entendo que aquele cantinho santo pode acontecer no coração de cada homem, de cada mulher, de cada criança se a gente não apenas dizer Feliz Natal... mas desejar Feliz Natal, trabalhar para um Feliz Natal, perdoar para um Feliz Natal.

Finalmente o rapaz veio com as minhas molduras. Paguei e saí. Nas ruas, o afobamento dos compradores de presente. Noite bonita de harpa paraguaia tocando baladas natalinas para alegrar os contentes e entristecer os solitários. Tanta gente andando como estrela sem Belém. Olhos vidrados e fixos na pressa, olhos que podem se tornar úmidos de vida se eu olhar bem dentro deles e acreditar que algo divino existe entre mim e você.

Minha carteira! Onde ficou minha carteira? Com certeza, no meio dos santos. Voltei para a loja. O rapaz tinha guardado. Agradeci e lhe perguntei o nome.

– Divino.

Entendi a mensagem daquele Jesus do presépio pobre e barato que, curiosamente, já não estava mais no cantinho da loja. Abri meu sorriso, pus meu coração no olhar e disse ao meu divino irmão:

– Feliz Natal!

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