Linda! Era fantasticamente linda a garota.
Colírio para os meus sonhos e música para os meus olhos. Morava (ainda mora) em Resende Costa, ali perto do... ou melhor, vizinha daquele primo da... Perdi o nome.
Mas do nome da garota linda eu me lembro. Está aqui dentro de mim, tão arraigado nas minhas lembranças que não consegue mais sair e pular para o papel. Por isso não está escrito aqui.
Eu começava no Assis Resende em 1986. Aos poucos, fui percebendo que dois olhos femininos se alegravam com a minha chegada e se entristeciam com as minhas constantes idas. Alegria sincera, sincera ao ponto de extravasar dos olhos e se derramar nos lábios, em forma de sorriso colorido de batom. Tristeza cálida, que chegava a derreter suas pupilas esgazeadas em dois filetes de pranto baixinho.
Aquilo não podia continuar assim. Ou eu ia ou eu ficava. O problema é que ninguém fica. Não existe primeira vez, tudo é última vez. As coisas já começam pra acabar. Se eu não podia ficar, que pelo menos ela fosse comigo. E imaginava viagens intermináveis nas paisagens da minha aventura.
Passei a gostar mais de mim quando minha imagem aparecia no espelho. Minhas manhãs me despertavam ao toque do entusiasmo e eu contava as horas para pegar o ônibus de Resende Costa. As lajes pareciam cada vez mais belas e as viagens não cansavam nunca. Resolvi investir na minha fachada: comprei sapatos novos, um relógio bem bacana e uma roupa cara, confesso, mas que era bonita era. E mandei ver.
Quando entrei no ônibus, teve gente que até me pediu a bênção, de tão chique eu estava. Era apenas um dia de semana comum e eu ali enfeitado, destoando dos demais, todos vestindo dignamente a roupa própria de uma terça-feira à tarde. Quando o Isaías chegou pra tirar a minha passagem, fuzilou:
– Vai casar hoje, Nêgo? – Isaías chamava todo mundo de Nêgo.
A coisa piorou quando o Mário, assentado ao meu lado, disse que eu estava voltando de um exame de fezes... e que tinha sido reprovado. Gargalhada geral. Mico particular.
Desci em frente à casa da Maria Melo e fui para a escola. Dei as minhas aulas pensando nela, na minha musa das Lajes, que sempre ficava à janela quando eu voltava do colégio. Deu dez e meia e deixei todo mundo pra trás. Mascarado como um Zorro apavorado, entrei na passarela do meu desfile: a rua da garota bonita.
Ela estava lá, em frente a casa, dentro de um Scort novinho (desde esse dia, passei a ter sérias implicâncias com Scort). Passei justamente no momento em que ela... deixa pra lá, é chato ficar falando que ela estava beijando outro.
Engoli uma coisa difícil de descer. Típico príncipe desencantado, terminei o meu desfile. No meu bloco, eu era o destaque de mim mesmo. Olhei as horas no meu relógio bacana: quase meia-noite. Minha roupa perdeu o encanto e apressei o passo com os meus sapatos novos, que não eram de cristal. Nada fica, tudo se vai...
Ou melhor, alguma coisa ficou: as prestações que continuei pagando pelo investimento na minha nova fachada. Inesquecível.
Inesquecível
12 de Abril de 2010, por José Antônio