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Lembranças

09 de Julho de 2013, por José Antônio

O fluxo da memória... Será que memória tem fluxo? Tem nada! A memória é um lago profundo e misterioso no qual as lembranças aparecem e afundam... para depois aparecerem outra vez, acompanhadas de outras lembranças.

Fecho os olhos e respiro fundo. Emergem em mim algumas lembranças. Ainda estão vivas, não se afogaram no abismo negro do esquecimento. Molhadas de memória, essas lembranças respingam momentos de um 1988 tão longe, tão perto... 1988 da nova Constituição Brasileira, do assassinato de Chico Mendes, do surgimento do Tocantins e o Brasil ganhava ainda mais dois estados: Amapá e Roraima.

Também foi o ano em que eu estava à beira de uma piscina no churrasco de formatura de um terceiro ano do Assis Resende. Professores e alunos, confraternização alegre com sol, cerveja, carne e música.

Lembro-me de que o Mário Márcio cantava ao violão qualquer coisa que falava de água. Acho que era o Djavan: Você deságua em mim e eu oceano... Logo depois, o Mário cantou Sá e Guarabira: O sertão vai virar mar... Debaixo dágua lá se vai a vida inteira... Nem bem acabou essa e o Mário emendou mais uma que falava de água: Águas que banham aldeias e matam a sede da população... Terra! Planeta Água... Só música que falava de água. Até parece que o Mário tinha dormido com uma sereia.

Aquilo parecia um aviso. E foi.

Eu conversava com uma das alunas quando alguém empurrou a garota na piscina... e a coitada não sabia nadar! Ela se agarrou forte em mim para não cair. E caímos os dois.

Na água, a menina era toda pavor: puxava meu cabelo, batia os braços na minha cara, esmurrava a água, chutava a minha barriga e me levava cada vez mais para o fundo, travando meus movimentos. Eu não podia fazer nada, pois tinha que me desvencilhar dos ataques dela justamente para ajudá-la... ao mesmo tempo em que também tinha que segurar minha sunga, que já estava quase no joelho.

Foi um desespero. O Mário parou de cantar e, dentro da piscina, aquele dueto horroroso, mico de duas notas musicais: eu gritava com dó e a menina fora de si.

Por fim, um grupo entrou na água e resgatou a desesperada. Fiquei sozinho na piscina por um bom tempo. Engoli muita água. Precisava relaxar a barriga e apertar a sunga.

Fechei os olhos e respirei fundo. Ao abrir novamente os olhos, estou aqui e agora, tão distante daquele tempo. Mas a lembrança dele teima em emergir no lago da minha memória.

Minhas lembranças, tantas lembranças. Algumas nadam tranquilamente no lago da minha memória. Outras se debatem igual àquela garota, jogando angústia pra todo lado. Trato-as todas muito bem. Umas viram literatura e outras se vestem de causos.

Tenho que entender bem as lembranças, pois um dia eu também serei nada mais do que uma lembrança. E, como lembrança, quero nadar sereno no íntimo de quem se lembra de me amar. Mesmo que in memoriam.

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