Quando as recordações de Resende Costa me invadem vestidas de saudade, algumas imagens ganham contornos nítidos.
Lembro-me de um cachorro grande, amarelão e com cara de filósofo, facilmente encontrado nas portas dos botecos. Vivia dormindo. Não dava a mínima para a gritaria das bebedeiras nos bares. Jamais descia do salto. De vez em quando, ele ficava sentado, altivo, olhando em direção do horizonte. Acho que era ali que ele filosofava.
Passamos várias vezes um pelo outro, eu indo e ele vindo. Nem olhava pra mim. Sempre com a boca aberta e a língua pra fora. Era bem nutrido e o pelo não era castigado. Com certeza, recebia ajuda dos moradores da cidade.
Seu nome? Nunca tive a curiosidade de perguntar. As pessoas o chamavam assoviando ou estalando os dedos. Ele ia até o sujeito, ficava por ali um instante e se retirava em busca de seu rumo incerto pelas ruas e becos.
Naquela tarde, eu e o Mário Márcio tínhamos acabado de receber o salário. Saímos da Minas Caixa e fomos até os Quatro Cantos. Num boteco peguei uns salgados e coloquei dentro de uma sacolinha, junto com o meu dinheiro. Foi então que o Mário me alertou:
– Não estou gostando nada daquele cachorro ali, Zé. Ele tá seguindo a gente desde lá de trás.
Era por causa dos salgados.
Passamos por diferentes ruas e o cachorro ali, numa fidelidade que incomodava. O Mário virou-se e agachou, fingindo pegar uma pedra. O bicho estacou e logo depois correu com medo.
Entramos na loja do Zé do Duque pra ver o preço de não sei o que mais. Pus a sacolinha no balcão e travei conversa com o Zé. De repente, o Mário gritou:
– O cachorro tá levando tudo!
E o cachorro já tinha virado a esquina do Tião Melo... Levava o meu salário com ele. Desci a ladeira como um desesperado. Dessa vez, o cachorro estava na frente e a fidelidade era minha. A correria foi parar perto do Conjurados. O animal se sentou e ficou olhando pra mim, rosnando com a sacolinha na boca.
Fui me aproximando, bem devagar. Fiz cara de simpático e soltava um elogio a cada passo que dava. Mas ele parecia dizer que mais um passo e eu me arrependeria. Achei melhor ouvir as ponderações que o cachorro me enviava entre os dentes. Afinal, ele era um filósofo.
Ele se levantou e fez que iria correr de novo. E correu. E foi embora. E levou o meu dinheiro. E nunca mais vi o meu pobre salário.
Ainda circulei pelos lados que o cachorro tomou. Tarde demais. Depois da ronda, voltei pra casa abatido, desencantado da vida, murmurando uma velha canção do Paulo Vanzolini.
No dia seguinte, passei pelos Quatro Cantos. O cachorro estava lá, dormindo sossegado na porta de um bar. Pensei em ir até ele e perguntar pelo meu dinheiro, sei lá, chamar a polícia. Loucura.
Tudo isso por um cachorro? Ainda ririam de mim. E tem mais: mesmo que o cachorro fosse preso, ele tinha dinheiro para pagar a própria fiança.
Meu salário
17 de Agosto de 2011, por José Antônio