Voltar a todos os posts

Numa tarde de quarta-feira

13 de Junho de 2012, por José Antônio

Meu jantar com uma amiga foi interrompido por um telefonema. Afastei o garfo da boca e aproximei o telefone do ouvido.

- Claro... com prazer. Eu vou... quarta-feira eu posso... sim...

Era a professora Gagaça me convidando para falar a seus alunos sobre o meu ofício da crônica, lá no Assis Resende.

Falar o quê? Muita coisa minha eu deixo por escrito. É só ler. Mas queriam a presença do cronista, a voz do cronista, o cheiro do cronista, os gestos do cronista. Queriam o corpo do cronista.

Aí é que estava o problema: o corpo. Quando escrevo, coloco o meu corpo nas palavras. À medida que avanço pelas linhas, meu corpo acompanha emprestando coisas que são dele: lágrimas, suor, desejo, calor, olhar, voz... e o toque da minha mão sobre o papel. Não sei escrever sem a carona do meu corpo. E agora eu teria que levar o meu corpo sem a escrita. Isso aleijaria a minha expressividade.

– Sabe, Zé, eles querem ver o autor de perto, ver que o escritor não é de outro mundo...

Mas acontece que eu sou de outro mundo. Ouço vozes de bocas que não estão perto de mim, vejo cenas que já se vestiram de jamais, sinto coisas já velhas conhecidas e que destilam mistérios... É maluco, mas é assim.

Cheguei ao Assis Resende no meio da tarde de uma quarta-feira. Olhos adolescentes me devoravam com uma curiosidade ansiosa. Fui recebido com honras que não mereço e vi, ao longo das paredes, minhas crônicas afixadas. Vi também um varal com as páginas de um livro meu. Aquilo tudo me fez sentir algo molhado e quente forçando minhas pálpebras de dentro para fora.

Uma aluna e um aluno leram duas crônicas minhas e outra menina cantou ao violão. Saudades das minhas madrugadas sem manhãs, serestas nas lajes...

– Agora, o nosso convidado vai falar!

Todos em silêncio, esperando que o cronista falasse alguma coisa que valesse a pena. E o meu corpo ali... mas cadê a escrita? Resolvi, então, falar em forma de crônica. E a palestra foi uma crônica oral. Meu corpo acompanhou os movimentos do meu dizer e experimentei a vertigem das frases e dos silêncios que em mim caíam e se levantavam. A garotada também emprestou seu corpo ao meu texto, e vi lágrimas furtivas, sorrisos de canto de boca, gargalhadas honestas, olhares entre si e vozes que faziam perguntas.

No fim, ainda usaram as mãos para baterem uma na outra e me entregaram um aplauso. Aplaudi junto, pois eles foram co-autores do que ali construí.

Pedi o violão e cantei uma última canção, deixando meus olhos caírem em olhos que fugiam dos meus e em olhos que recebiam com doçura o meu olhar.

– Nós queremos lhe dar um presente.

Não poderia ser outra coisa: uma caneta.

Fui embora carregando dentro de mim umas doses de alegria quieta.

O tempo passou e a caneta ficou guardada até hoje, pois foi hoje que a tirei do estojo e fiz essa crônica. E é hoje, ontem, amanhã e sempre que cada rosto que me ouviu ficará afixado ao longo dos corredores do meu íntimo.

Deixe um comentário

Faça o login e deixe seu comentário