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O Padre

15 de Marco de 2009, por José Antônio

A expectativa cria o ponto de vista. Às vezes, tudo conspira para que criemos uma hipótese, mas vamos além e criamos uma certeza. Tudo por causa da expectativa. Uma vez, fui ver um espetáculo da Esquadrilha da Fumaça. Todo mundo olhando para o céu e nada de avião. E todos à espera de algum sinal no céu. O atraso colocava um torcicolo na paciência de cada um. Nem um zumbido. Nem sombra de asa. Nem nada.

De repente, comecei a vislumbrar ao longe um grupo de aviões. Vinham como que em silêncio, uma vez que estavam distantes. Vinham juntos, fazendo já alguns círculos, um ao lado do outro.

Ali, gente! A Esquadrilha da Fumaça!!!

Antes que todos começassem a rir, eu mesmo já tinha olhado melhor: era um pequeno grupo de urubus. Por isso que não havia fumaça.

Para mim, era a turma da acrobacia aérea. Tudo ali conspirava para que fossem os aviões. A expectativa me fez criar um ponto de vista.

No Sábado de Aleluia de 1989, Dona Terezinha, professora de música, me convidou para cantar uma das leituras na missa da noite, lá na matriz. Pois eu fui, todo formal, vestido de preto e com uma camisa de gola branca. No meio dos padres, lá no altar, subi à tribuna e soltei a voz. Confesso que caprichei.

Quando acabou a cerimônia, fui abordado por uma senhora bem vestida. Cabelo tão branco que já era azul. Muito magra e muito alta. Um palito de cabelo azul. Não era de Resende Costa, morava no Rio de Janeiro. Pediu para conversar comigo e fomos ali para o adro lateral da igreja. Já assentados na mureta, a mulher disse que estava afastada da Igreja havia muito tempo, mas queria retomar a sua devoção.

– O senhor pode me ajudar? – perguntou aflita.

– Sim, minha senhora. Eu vou conduzi-la...

– Conduzir para onde? Para a paz? Para o céu? Para onde? Eu preciso que alguém me conduza. Para onde o senhor vai me conduzir?


Me deu vontade de conduzir aquele cotonete para o cemitério.

– Padre, eu preciso de uma direção.

Padre?! A carioca do cabelo azul pensou que eu era padre e queria se confessar comigo. A coisa ficou mais séria quando a dona me confiou a própria salvação.

Se eu falasse que não era padre, a mulher despencaria direto para o inferno, tamanha a decepção. Depois de um sarapatel de justificativas, convenci a Madalena Arrependida a procurar um outro Cristo. Um dos padres, daqueles de verdade, reconduziu a ovelha para o rebanho.

Respirei aliviado e fui para casa. Pus uma bermuda, o chinelo, uma camiseta e fui desfilar num bloco de amigos, que sairia por volta da meia-noite. Desfilei cantando, dançando e abraçado a uma namorada. Foi aí que eu vi, em frente ao bar do Miguel, a mulher do cabelo azul, junto com uma família.

Passei dançando de costas para ela, quase agachado, fazendo de tudo para que não sobrasse nenhum buraquinho no chão por onde pudesse despencar uma alma desiludida para o caldeirão do capeta.

– Olha lá! – alguém gritou. E todos olharam para o céu.

Eram os foguetes anunciando a Aleluia.

Ainda bem que não era um bando de urubus...

Comentários

  • Author

    José Antônio,
    Adoro suas crônicas! Mal espero o jornal chegar pra ir direto até a página onde você deixa suas lembranças.
    Parabéns pelo talento!


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