De repente, uma freada brusca. Todos espremeram as caras curiosas contra o vidro das janelas do ônibus. Muitos falavam tudo, mas não tinham visto nada. Ainda mais naquele breu da noite. Aos poucos, informações mais precisas começaram a se espalhar dentro do ônibus depois que o motorista e o trocador desceram para averiguar.
– Acho que matou.
– Pelo barulho...
– Era grande?
Aquela freada me acordou justamente no momento em que eu sonhava que estava num globo da morte. Meio grogue, perguntei pro passageiro ao lado:
– Cadê a moto?
– Não tem moto não, moço. É bicho mesmo.
Meio acordado, meio dormindo, mas palerma por inteiro, insisti:
– Bicho?! Já acabou o número do globo da morte? Tá na hora dos bichos? É leão ou macaquinho?
O rapaz preferiu sair de perto e foi lá pra frente, deixando-me sozinho no circo do Morfeu.
Quando o torpor do ridículo se esvaiu, me dei conta de que o ônibus tinha atropelado um porco. Também me dei conta de que o motorista e o trocador não estavam resgatando o suíno, mas sequestrando. Já que o bicho estava abatido, resolveram não chorar pelo leite derramado... e pegaram o leitão esparramado. Colocaram o pobre animal dentro do porta-malas e seguiram a viagem, conversando animados sobre as possibilidades de menu que o porco oferecia.
Ali perto do Ribeirão do Mosquito, senti uma coceira chata na sola do pé. E eu estava de sapatos. Tentei enfiar o dedo, mas não alcancei o ponto. O jeito foi dar suaves pancadas com o pé no chão do ônibus em busca de algum alívio.
Foi só eu começar que o ônibus parou de novo, irritando os passageiros:
– Outro porco?
– Alguém deixou o chiqueiro aberto.
O trocador, assumindo os ares didáticos de uma comissária de bordo, explicou a todos que iria tirar o porco do porta-malas, pois o bicho estava vivo. Ele e o motorista tinham ouvido pancadas. Preferi ficar quieto. Dei pancadas com o pé sim, mas foram muito leves.
Apesar da escuridão, pude ver os dois, cada um pegando de um lado, arrastando o porco desacordado e colocando-o à beira do asfalto. Voltaram e o ônibus começou a andar. Olhei repentinamente pela janela. Juro que vi o porco se levantar e sair correndo. Vivo e salvo. E o porco ex-cardápio sumiu no mato.
E aí, eu fiquei pensando: o ônibus parou por causa das minhas pancadas ou o porco também deu pancadas, avisando que estava vivo? Salvei o porco com o meu pé ou ele mesmo se safou, pra não virar pé de porco? O porco levou o lombo, mas deixou o limbo: minha eterna dúvida.
A pulga que estava no meu pé hoje mora atrás da minha orelha.
O porco e a pulga
16 de Outubro de 2012, por José Antônio