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O show

18 de Abril de 2009, por José Antônio

Era sempre assim. As aulas terminavam quase onze da noite, Mário Márcio e eu passávamos no trailer dos irmãos Érik e João Marcelo, pegávamos um sanduíche e íamos para a casinha do beco. Lá, apanhávamos o violão e era hora de um mostrar para o outro a última canção que tinha feito, ou uma que estava no meio do caminho... Às vezes, cantávamos coisas já antigas, músicas nossas e dos outros.

Lembro-me das cantigas, dos acordes, das madrugadas. Tudo passou... Sei lá se passou. Acho que quem passou fui eu. Essas coisas ainda estão presentes num tempo que perdura nas encenações dos meus fantasmas. Eles me assaltam sem pena e me fustigam de passado. Não consigo sangrar, mas meus olhos ficam úmidos.

- Vai dar certo, Zé! O povo vai adorar.

Era o Mário. Vinha movido a entusiasmo.

- Um show, Mário?

–Tem tudo pra dar certo, Zé! A gente pode cantar as nossas músicas e aquelas que a gente sempre canta nas serestas que a gente faz por aqui.


O meu amigo conseguiu me convencer. Marcamos a data e escolhemos o repertório. A propaganda foi feita no mano a mano com os alunos, principais alvos de nossa platéia, uma vez que grande parte deles estava ameaçada de ser reprovada.

Na noite do show, o teatro paroquial estava lotado. Até parecia uma conferência para alunos de recuperação. Não havia na platéia um único aluno de nota boa. Eles não precisavam daquele espetáculo. Somente as notas vermelhas compareceram com o sorriso amarelo, pois a coisa estava preta. Eram as cores do show!

Lembro-me de que eu e o Mário esmeramos no requinte: elaboramos até uma roupa para a dupla. Os dois de jeans, camisa vermelha de manga comprida e um colete verde.

Alguém nos anunciou. As cortinas se abriram e entraram em cena aqueles dois pintassilgos enferrujados. Pude ouvir alguns risos abafados pelo medo da reprovação. Os aplausos nos receberam. Poucos, mas aconteceram. Falei alguma coisa engraçada para o público e o público não achou nada engraçado. Mário contou emocionado e sério a história da composição de algumas de nossas canções. O público achou engraçado.

Cantamos coisas bonitas e acabamos envolvendo todo mundo. Depois, foi a hora de cada um da dupla cantar sozinho. Mário cantou primeiro e, quando terminou, saiu do palco. Entrei e comecei a me ajeitar em frente a um tripé, onde coloquei as músicas.

Sem que ninguém chamasse, entra o Mário em cena. Caminhou até o tripé e resolveu firmá-lo mais. Foi só o Mário encostar no tripé que o negócio desmontou, espalhando minhas canções pelo chão e para um fosso que havia abaixo do palco. Olhei repreensivamente para o meu amigo, mas já era tarde: ele já completava seu segundo rolamento no chão. Tinha tropeçado no fio do próprio violão. Caiu com a viola e tudo.

A risada foi geral. Olhei bravo e ameaçador, não mais para o público, mas para os meus alunos. Silêncio total, pois se lembraram da cor das notas. Abaixei para catar as músicas e, ao me levantar, bati com a cabeça no microfone, mandando-o para o fosso.

Dessa vez, azar para as notas. A platéia se rachou de rir. Número hilário, comédia das mais brilhantes. E tudo isso sem uma palavra sequer. Continuamos o show e chegamos até o fim.

Quando saímos do teatro, fomos abordados por uma garotinha. Olhou pra cima e perguntou:

Amanhã vai ter outra vez?

Perguntei, todo paternal:

Por que você quer saber, meu amor?

É porque eu não vim. E tá todo mundo falando que eu perdi a palhaçada.

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