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Peladão

13 de Agosto de 2015, por José Antônio

Aquilo já estava dando nos nervos da Leontina. Depois de vinte e um anos de casados, o Ataulfo deu pra andar pelado dentro de casa.

Leontina entrava na copa, o Ataulfo pelado mexendo nas frutas. Leontina chegava na cozinha, o Ataulfo pelado perto do fogão, que nem peru depenado, indeciso diante da panela. Leontina passava na sala, o Ataulfo pelado no sofá. Era a mesma coisa que morar com o Tarzan decaído e sem tanga.

Aquela peladice descarada do Ataulfo estava passando dos limites. Toda manhã era a mesma coisa: o chiado forte do chuveiro quente parava, a porta do box se abria e lá de dentro, numa aparição confusa, surgia o Ataulfo pelado. Leontina não aguentava mais aquele assombração sem roupa chegando das brumas.

Quem sabe o Ataulfo não andava bem da cabeça? Era o que a pobre mulher pensava. E o pior é que o Ataulfo, depois de passar o dia inteiro nu, vestia pijama pra dormir. Não! Aquilo não era normal. Ele não estava bem mesmo. O jeito era o casal discutir o assunto.

À noite, depois do jornal, Leontina desligou a televisão e disse que precisava conversar sério. Ataulfo ficou cismado. Quando a mulher dizia que queria conversar sério, o bicho sempre pegava. Na última vez em que conversaram sério, quase que o casamento foi pras cucuias.

Foram para a sala. Silêncio. Leontina séria. Ataulfo pelado.

– Não está legal, Tatá, esse negócio de você ficar andando pelado pela casa toda... É esquisito. Eu me sinto desrespeitada.

– Meu bem, passei a sentir muito calor. Não sei se é da idade, mas o fato é que eu estou sentindo muito calor mesmo. E além do mais, tanto tempo juntos... não há nada que esconder entre nós dois. A gente já se conhece bastante.

– Tatá, é sério. Eu não gosto disso. Faz assim: essa semana a gente instala um ar condicionado e compra uns três ventiladores. Satisfeito? Desse jeito, essa sua quentura vai embora rapidinho sem precisar de você ficar desfilando de Adão pelos cômodos da casa. Convenhamos, até pra ficar pelado tem hora certa. Não é à toa que existem as roupas. Tem hora pra ficar vestido e tem hora pra ficar sem roupa. Entendeu? Essa sua nudez gratuita me incomoda. Nossa casa não é praia de nudismo. E tem mais: já pensou se você se distrai e atende a porta nesse estado?

Entraram num acordo e Leontina concordou com que o marido andasse pelo menos de sunguinha enquanto os aparelhos não chegassem.

No dia seguinte, bateram à porta. Era a mãe de Leontina.

Ataulfo está até hoje respondendo por um processo de desacato ao pudor: com uma sunguinha sumária mandou a sogra entrar. O chato é que na parte da frente da sunguinha havia um desenho do Cebolinha ou do Cascão, sei lá, fazendo um gesto constrangedor.

Quando contam essa história para os amigos, Ataulfo sempre olha angustiado pra esposa e diz:

 

– Eu não estava pelado, meu bem. Eu juro que não estava pelado.

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