Resende Costa... quase sou daqui. Metade de mim é laje, a outra metade é longe. E quanto mais te vejo, cidade quase minha, mais te pergunto para te recriar. Cada pergunta que te faço me leva a promessas e ensaios de respostas que ora vêm vestidas de humor, ora vêm com roupa de poesia.
Por baixo da roupagem, a mesma nudez de sempre: uma cidade e suas esquinas... uma cidade e seus becos e montes... uma cidade e seu povo e prosa... uma cidade... e eu.
E eu te pergunto, cidade. Pergunto para te ver diferente na linguagem que ousa sentidos outros.
O muro que o Beira Muro beira é muro de arrimo? O que há por trás do muro que o Beira Muro beira?
É de zinco ou de alvenaria o Barracão? Quantas pessoas cabem no Barracão? Pelas frestas do teto do Barracão, como alguém já cantou, dá pra ver as estrelas?
O que entra pelo Buraco do Inferno? O que sai pelo Buraco do Inferno? Não entra nem sai nada do Buraco do Inferno? Então o capeta tem o orifício entupido?
Qual é a melodia dos Quatro Cantos? O que os Quatro Cantos cantam? É um diapasão para cada um dos ângulos? Os Quatro Cantos fazem uma polifonia de esquinas?
Onde está o campo do Parque do Campo? Onde estão os brinquedos, as crianças, o alarido do parque do Parque do Campo? Qual é o parque? Qual é o campo?
A Rua Sete fica entre a Rua Seis e a Rua Oito? Seis e oito não são quatorze? E sete não é o meio de quatorze? Então? A Rua Sete não está realmente no meio da Rua Seis e da Rua Oito?
Os pintos do curralinho ciscam com força? Não é perigoso? No Curralinho dos Pintos, qual o pinto que é mais ralinho?
Já fizeram terraços com as lajes daqui? Já colocaram as lajes no ponto mais alto das casas? Ou não precisa, pois elas já estão no alto? As lajes das Lajes são pedras ou são mirantes do infinito?
E o Morro do Chapéu? Cobre a cabeça de quem? Quem o esqueceu ali, ao longe? Alguém que tirou o chapéu para a cidade e foi embora? O Morro do Chapéu, com aquele seu jeitão de pirâmide do Egito, não seria um faraó das montanhas?
Sabe aquela luz que todo mundo fala que aparecia por aqui, assustando as pessoas de madrugada? Pois é, cadê a luz? Por que ninguém mais fala dela? Por que não aparece mais? Queimou? Ou era apenas um sol atrasado, correndo para não perder a hora de amanhecer outros lugares?
Eu te pergunto, Resende Costa... e me respondes em cada madrugada que me invade, em cada saudade que me acaricia, em cada amor que me ressuscita. E com isso tudo vou tecendo auroras. Pego um pingo de luz e jogo nas perguntas que te faço. Aos poucos, o arrebol... e te vejo renascida, Resende de Costa e de Frente, Resende Costa renascida quando eu brinco de perguntar.
Perguntas de renascer
09 de Abril de 2012, por José Antônio