Quem é que inventou o pente? Ou ninguém inventou? Talvez o pente seja um artefato do evolucionismo. Homens e mulheres nas cavernas, aquela cabelada toda desgrenhada que nem piaçava de duas pernas... De repente, a própria natureza gritou que era preciso fazer alguma coisa, pois os hominídeos já estavam até se embaraçando uns nos outros de tanto cabelo.
E o pente apareceu. Consequência natural e determinismo pragmático. Era o único desfecho possível. Apareceu como um dos elos da cadeia das necessidades humanas. Até hoje o pente está aí e todo mundo sabe pra que é que serve.
Outra coisa importante é a tesoura. Se o pente apareceu a fim de assentar o que não parava de crescer, a tesoura surgiu para diminuir tamanhos. E ela está aí até hoje, igualzinho ao pente: útil, firme, constante. A tesoura corta tudo, menos a sua utilidade. Todo mundo sabe pra que é que serve.
Isso é o que faz uma invenção durar: a gente saber pra que é que serve.
De vez em quando, o homem inventa umas coisas e se esquece de inventar uma utilidade para elas. Uma dessas invenções inúteis é a tinta pra pintar pelo de cachorro e pena de pintinho. Pra que é que serve um poodle azul? Onde eu vou usar um yorkshire cor de abóbora? Você encara andar pelas ruas com um pinscher verde? Deve ser duro pra uma galinha passar quase um mês chocando ovos e ver que seus pintinhos ficaram jade e grená. Isso humilha o galinheiro e o galo, que – com certeza – preferiria que os pintinhos ficassem roxos.
Tinta pra pintar bicho... pra que é que serve?
Outra coisa que não sei pra que é que serve, mas que foi inventada, é a vuvuzela. Feia, irritante e sem utilidade. Andei lendo que ficar exposto ao som dessa porcaria durante muito tempo pode causar danos irreparáveis aos ouvidos. Porém, quem inventou a vuvuzela não corre esse risco, pois a orelha é grande e acaba protegendo os tímpanos. Outro risco da vuvuzela é espalhar vírus, já que todo mundo fica soprando em cima de todo mundo.
Ridículo olhar para a torcida e ver aquela turma de marmanjos e crianças, todos com um canudão enfiado na boca e buzinando numa nota só. Qual a utilidade da vuvuzela no jogo? Nenhuma. Qual a alegria que a vuvuzela traz pra quem está sentado ao lado do soprador? Nenhuma.
E o povo insiste em exercitar a embocadura no cornetão burro.
O negócio tem requinte: já inventaram a vuvuzela tipo buzina a ar comprimido. Você não precisa soprar, é só apertar um tipo de êmbolo que a injeção de ar acontece. O resultado é aquele barulhão inútil.
Vuvuzela... pra que é que serve?
Se o pente e a tesoura vieram de um tipo de evolucionismo pragmático, a tinta pra pintar bichinhos veio de um revolucionismo antipático. Quanto à vuvuzela, essa veio mesmo é de um regressionismo dramático.