Tem coisas que a vida avisa. Meu primo me contou que se preparava pra viajar no dia seguinte. Pois na véspera, ele teve enxaqueca. Tudo bem, você pode até dizer que isso foi por causa do stress da viagem, da pressão do compromisso... Mas o meu primo jamais tem dor de cabeça. Só duas ou três durante todos os anos que está vivendo.
Além disso, a chave quebrou dentro da fechadura quando ele chegou do trabalho e foi abrir a porta de casa. Queimou a mão na frigideira ao fritar – junto com a mão – um ovo. Teve insônia (fato raríssimo em sua vida) e caiu durante o banho pela manhã.
Resolveu não viajar.
Não aconteceu nada com o avião onde ele estaria. De duas uma: foi tudo cisma dele ou o azar estava realmente com ele e seria transportado para o avião, que cairia bem no meio de uma tribo de antropófagos, cujo maior sonho é o de se alimentar de gente que cai das nuvens.
A vida avisa.
E foi ela que avisou naquele sábado quando eu e o Mário Márcio fizemos um show no Salão Paroquial de Resende Costa. Pela manhã, realizamos o nosso último ensaio com som, lá no salão mesmo. O som era do Túlio Daher, e se chamava Prisma. Dividíamos o espaço com os incontáveis pombos que moravam por lá.
No meio do ensaio, chegou o Padre João Rodrigues e um homem que nunca mais vi. Carregavam uma escada comprida e pararam no meio do salão. Mário e eu continuamos a cantar. O som estava alto e não ouvíamos o que os dois diziam. Padre João apontava para cima e, pelas feições, reclamava bastante. O homem escutava com atenção. Logo a seguir, aprumou a longa escada, que ia até o forro do salão. Aos poucos, ele foi subindo, subindo... e não olhei mais, pois precisava ensaiar.
De repente, Padre João, lá da plateia, começou a me dizer coisas que eu não entendia. O som alto, o Túlio com fone de ouvido e de costas, o Mário também cantando... Pensei que Padre João estava dizendo que a música era bonita, que o espetáculo prometia... Mas o padre ficava cada vez mais angustiado e vermelho.
Comecei a perceber que ele ensaiava uns passos de dança aos pés da escada e sorri animado para o Mário. Estávamos contagiando antes mesmo do show começar. Foi aí que eu entendi que o Padre João estava era desesperado. A escada escorregava e ele tentava, sozinho, segurá-la.
Então, o inevitável aconteceu. A escada perdeu o apoio e o homem despencou lá de cima trazendo uns vinte pombos voando com ele. Caiu também um gato que, por sinal, mostrou-se bastante constrangido e revoltado.
E foi todo mundo embora: o padre e o homem carregando a escada, os pombos, Mário, eu, o Túlio... e o gato. Esse último ainda olhou pra trás, em nossa direção, e fez um fzzzzzzzzzz com raiva.
À noite, o show foi um fracasso. Quase ninguém compareceu. Na plateia, nem gato pingado tinha, pois o gato já havia pingado de manhã.
Quando terminou o show, Mário e eu fomos pegar a renda. Você acredita, leitor, que roubaram o nosso dinheiro num momento de distração do rapaz que estava na bilheteria? Não havia um centavo sequer.
Suspeitas? Nenhuma. Mas o rapaz da bilheteria jurou que durante todo o show ele viu um gato rondando por ali.
... suspeito... bastante suspeito.