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Quem é que anda te pegando?

19 de Novembro de 2015, por José Antônio

Tudo ia bem no churrasco até que o Fonsequinha resolveu abrir a sua cartela de comprimidos. O Jonisvaldo foi o primeiro que viu:

Remédio pra que, Fonsequinha?

O outro suspirou fundo:

– Ansiolítico. A barra está torta. Já tem um ano.

Churrasco somente de homens. Amigos antigos, desde os tempos do colégio. As esposas e os filhos não vieram. Era um momento só deles, dos amigos inseparáveis.

– Olha, gente – e aí, o Jonisvaldo abriu o olhar para todos – eu também tomo remédio pesado. Cinco anos com antidepressivo.

É mesmo? Qual é o que você está tomando? – quis saber o Almeida.

Nem bem o Fonsequinha exibiu os seus comprimidos de remédio pesado, outros dois amigos também se confessaram usuários. E a conversa descambou para as confidências e as trocas de informações.

– Quem te receitou esse?

– É fácil de achar?

– É bom diminuir a cerveja.

O meu, se exagerar, causa sonolência, emagrecimento e perda de memória.

– E o meu? Pode causar drogadicção. Já pensou? Ficar com problema na fala?

Drogadicção não tem nada a ver com dicção, não é problema na fala. É dependência. Eu, por exemplo, sou drogadicto: não passo sem o meu Lorax.

Fonsequinha esperou o drogadicto acabar de falar e amargurou a sua profecia tarja preta:

– Estamos velhos.

Silêncio.

E o Fonsequinha aumentou a dose:

Antigamente, cada um de nós trazia fotos de garotas. A gente ia vendo e falando: Já peguei... Tô pondo a mão... Vou pegar... Agora, é remédio que a gente olha e fala: Já tomei... Tô pondo debaixo da língua... Esse já me pegou... Quer saber? Eu já estou cansado de tanto PAM: diazepam... bromazepam... O seu aí, Falcão, é o quê?

O Falcão colocou os óculos e leu espremendo os olhos:

– É... espere um pouco... diazepam também.

Jonisvaldo falou soturnamente:

– É remédio pro resto da vida. É muito PAM: Pílulas Até Morrer! PAM!

Todos caíram numa gargalhada convulsiva e demorada. No fim, estavam abraçados e chorando.

– Estamos ficando mais do que velhos, estamos quase inúteis.

– Isso também não! – protestou o Almeida – A gente ainda pode muita coisa. Vejam só o exemplo do Mamute. Por que o Mamute não veio pro churrasco? Simplesmente porque está na praia com uma menininha trinta anos mais nova do que ele. Isso, sim, é vitalidade.

– Aquilo não é vitalidade.

– Ah, não? Então o que é, Fonsequinha?

 

– É Viagra.

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