Se arrependimento autoral matasse, muita gente famosa mandaria suas frases pro limbo. Para escapar das pressões puritanas da sociedade de seu tempo, Flaubert teve que se explicar quanto ao seu então escandaloso “Madame Bovary”. E aí, coitado, o jeito foi botar batom e saia na sua justificativa: Madame Bovary sou eu!... de bigodão e tudo. Quase que ele passou para a história de Flaubert para Florbela!!!
E o D. Pedro I? Independência ou morte!... berrou o gajo. Até hoje a gente não sabe se o resultado foi a independência ou a morte. O nosso dublê de libertador deve ter se arrependido de outra: “Se é para o bem de todose felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico.”E ele ficou longe. E ainda deixou por aqui um menor abandonado sentado no trono.
As personagens femininas que eu crio ainda não me obrigaram a vestir saia. Também ainda não gritei frases tresloucadas para meia dúzia de gatos pingados no meio do mato e perto de um riachozinho sem graça. Porém, também sou autor de frases estranhas que me feriram as entranhas. Uma delas veio de um convite do Mário Márcio.
– É um casamento, Zé. Chamaram a gente pra fazer uma seresta na véspera.
Acabei aceitando, mesmo não sabendo quem era a nubente da madrugada. Perto de meia-noite, aquela turma em frente à janela da moça.
– Quem é que mora aqui, Mário?
– A noiva, ué!
– Eu sei, Mário. Mas quem é a noiva?
– É a irmã do...
De repente, alguém começou a cantar sem esperar os violões e tivemos que ir atrás pra achar o tom. Fiquei tão preocupado em fazer a coisa direito que até me esqueci de olhar pra janela. E fiquei sem saber quem era a noiva. No fim, a família da moça convidou todo mundo para um lanche... tudo combinado!
Fiquei do lado de fora guardando o meu violão.
– Você não vai entrar?
Era uma garota simpática que me falava sorrindo, lá da porta.
– Não, obrigado. Amanhã eu me levanto antes do sol.
– Obrigada pela música. Foi tudo maravilhoso.
Querendo ser engraçado, pari esta pérola que deveria ter sido abortada:
– Diga à noiva que todo casamento termina na festa da despedida. Depois, é só despedida da festa. Você já parou pra pensar no preço do quilo do feijão?
Ela me olhou séria:
– O recado já está dado. Eu sou a noiva.
Não enfiei a viola no saco porque o violão já estava guardado. Saí mais sem graça do que miss quando cai sentada.
Depois de tantos anos, eu a vi num supermercado, com marido e filhos. Fiquei perto deles na fila do caixa. Ela não me reconheceu. Pude ouvir a conversa do casal:
– Não peguei o feijão.
– Então vai lá e pega, pô! Não temos o dia inteiro. Vai depressa antes que aumentem o danado do preço. Você já viu o preço do quilo do feijão?
Até hoje eu fico matutando. Será que eles já estavam vivendo a despedida da festa? Ou a minha frase seria apenas um zumbi a mais nas minhas lembranças?
Casamento... talvez o casamento seja realmente uma coisa boa. Opa! Senti um arrepio. Você já parou pra pensar no preço do quilo do feijão?
Quilo de feijão
12 de Julho de 2012, por José Antônio