- Mas, Eunice, a gente só tem uma semana... e eu venho aqui somente nas sextas-feiras.
- Confio em você. Sei que não vai me decepcionar.
A conversa acabou por aí. O sinal tocou e eu voltei para a sala de aula com um peso imenso nas minhas pobres preocupações: teria que preparar, em uma semana, um número teatral para o Dia das Mães.
Primeiro, pensar em algo. Depois, criar alguma coisa. Como se não bastasse, ensaiar todo mundo. Mais outra: cenário, figurino e música. Por fim, uma obrigação moral: não decepcionar a minha amiga Eunice Gomes.
Naquele restinho de noite, um hemisfério do meu cérebro dava aulas enquanto o outro rascunhava cenas. Perdia-me naquela esquizofrenia didático-dramatúrgica.
Na manhã seguinte, a ideia apareceu. Foi vindo tudo de roldão. Comecei a escrever, desenhar, cantar... estava tudo pronto. De São João, liguei para a Eunice.
- Preciso de quinze garotas. A gente começa os ensaios na segunda-feira.
Segunda, terça, quarta... fui a Resende Costa de segunda a sexta. No último dia, tudo estava preparado. Só faltavam as rosas. Eram quatorze rosas vermelhas e uma rosa branca, todas em botão. As vermelhas foram fáceis de achar, mas a tal da rosa branca...
Corri em todas as floriculturas de São João (eram poucas) e não achei um botão de rosa branca. Já era sexta-feira à noite. Minha prima me aconselhou colocar um botão de rosa vermelha dentro de um copo de leite de um dia para o outro. A rosa amanheceria branquinha. Parecia mais simpatia pra conquistar namoro. No desespero, vale até macumba com leite de rosas.
Na manhã do sábado, encontrei apenas uma coalhada florida. Nada de rosa branca. Comecei a correr contra o tempo. Vi uma casa com um jardim na frente. Tinha uma rosa branca lá. Minha consciência foi sendo substituída por um simpático apego ao alheio. Pulei a pequena grade e puxei a rosa. Veio junto a roseira, um varal de roupas molhadas e um cachorro... também branco. Aderi à cor dominante do momento e, branco também, consegui pernas e uma esquina.
O jeito era... qual era o jeito? Não sabia mais o que fazer. Foi quando ali por perto da casa do cachorro branco, nas imediações da igreja de São Francisco de Assis, uma família de turistas estava posando para uma foto. Pediram para eu tirar a foto deles em frente à igreja. Juntei todo mundo na mira da objetiva e, antes de clicar, reparei na beleza singular da menininha.
Agradeceram. Elogiei a filhinha bonita do casal. Era cega. Foram embora levando a menina que não via, mas que era alegre e espevitada. Não olhou pra trás nem deu tchauzinho. De repente, vi que o ursinho dela caiu da bolsa da mãe. Já estavam longe, entrando no carro. Corri e entreguei o brinquedo.
- Que sorte! Ela gosta muito do ursinho. Muito obrigada pela foto e por isso. Aceite um presente nosso. Faço questão. Tome, leve pra sua namorada.
E me deram um botão de rosa... branca.
Naquele sábado à noite, meu coração não havia ofertado flor para a namorada que ele sempre espera. Mas meu olhar aprendeu que, embora sejam cegos alguns dos caminhos, é possível enxergar com outros olhos. Criança cega não é cega, pois sempre consegue enxergar com uma outra outra visão, pura demais para os adultos.
Por causa de alguém que conseguia pintar a alegria no escuro, passei a não me angustiar tanto quando o meu ursinho cai.
E o espetáculo naquela noite foi lindo.
Rosa Branca
14 de Novembro de 2009, por José Antônio