Essa noite custou a amanhecer.
Noite funda, abismo lodoso e sem eco.
Meu sono foi atormentado várias vezes por espasmos estranhos que contraíam as minhas veias. Ao longo do meu corpo, uma quentura sem febre... um suor sem sal... uma nudez sem pele.
Madrugada alta. Comecei a ouvir sons que se sobrepunham numa confusão trágica. Eram gritos confusos e gemidos de dor que tentavam inventar uma lua negra no meu quarto minguante e só.
Mais um silêncio. E me afoguei nele.
De novo, aqueles sons. Gritos vindos de não sei onde... prantos confusos e desesperados... Minha cama me vomitava. O ar estava escasso. Corri para a varanda.
E essa manhã que não chega.
Olhei para o céu e as estrelas eram pontos vermelhos na íris preta dos olhos da insanidade. As estrelas eram respingos de sangue.
O que foi isso? Juro que ouvi umas explosões secas e rápidas. Tiros? Silêncio curto. E vieram prantos terríveis chegando de uma sala de aula onde somente cadáveres respondiam à chamada. Uma dor me cortou a palavra. Meus espasmos foram se transformando em convulsões. Aos poucos, meus olhos deixaram fluir, lágrima por lágrima, um luto de mar que perde a praia, de onda que perde o mar.
Noite que custa a amanhecer.
Gritos desesperados de quem corre sem direção... meu Deus, pais abraçados a filhos que gotejam sangue... a vida revirada pela reviravolta do absurdo... a morte fazendo festa alucinada, dona do baile macabro, rodopiando e dançando sozinha a feia canção do inferno.
Olhei para o lamento da noite. Numa cegueira de Édipo às avessas, ainda pude enxergar algumas luzes que subiam para céu. Vi uma menina vestida de bailarina... um menino com roupa de futebol... outra menina, vestida de princesa... mais outra menina, essa toda de branco... Eram muitos, eram doze.
E a noite não amanhece.
Não amanhece para que amanhã não tenha mais alarido de criança alegre. Para que amanhã não tenha mais correria de filho que encanta os pais. Para que amanhã seja um pesadelo que jamais se transforma em ontem.
Meu pranto parou e fui para o infinito. Invadi a escrita e costurei uma crônica. Fiz dela um aviãozinho de papel e mandei para o céu, em busca dos doze anjos que subiam... nenhum deles com a asa quebrada.
Minha crônica não voltou. Não sei se um deles a apanhou. Não sei se ela caiu no chão ensanguentado de uma escola vazia. Não sei se ela caiu na frente dos olhos marejados de alguém que perdeu para sempre.
Tiros que viriam na manhã da escola sem manhã
08 de Maio de 2011, por José Antônio