Passei somente um réveillon em Resende Costa. Foi no final dos anos 80 e início de 90. Como todo réveillon, esse também tinha foguete estourando na rua, pessoas abraçando quem nunca viram e beijando quem nunca mais iriam beijar... e aquela porção de gente com a obrigação de ser feliz no último segundo do ano que estava acabando. Ah, sim... e todo mundo de branco. Que nem arraial do Gasparzinho, o fantasminha legal.
E eu ali, zanzando zonzo na avenida. Tanta barulheira só porque o calendário iria mudar. Aos encontrões, fui abraçado num ano e beijei no outro. Na porta do bar do Miguel, um cara chorando sozinho, desabafando umas coisas para o paciente copo. Naquele copo, suas lágrimas etílicas... em seus olhos, a cachaça lacrimosa. De vez em quando, parava o seu monólogo e mandava um berro de “Feliz Ano Novo” para quem quisesse ouvir.
Sambas-enredo do Rio de Janeiro invadiam a madrugada. Casais abraçados, bebendo, cantando, gingando e se arrastando pra não sei onde.
Aquilo tudo foi me cansando e acabei indo lá pras lajes da Matriz. Ninguém lá. Olhei para os lados do Beira Muro. Uma lua maravilhosa prateava a paisagem enegrecida pela noite alta. Até a lua e as estrelas estavam de branco, saudando 1990. Ao longe, a algazarra da avenida. Perto de mim, um grilo executava o seu chiado insistente e monótono. Nem aí pra Ano Velho ou Ano Novo.
– O senhor é dotô? Trabalha no hospital?
O grilo começou a falar e eu estava virando Pinóquio.
– Aqui embaixo, dotô. Eu tô caído aqui. Me cura. Me dá um remédio. Ocê não é dotô? Tô com febre amarela. Toda vez que eu tenho febre eu fico amarelo.
Era um bebum. Achou que eu era médico só porque eu estava de branco.
– Eu não sou médico. Além disso, essa febre e você amarelo... deve ser hepatite.
– Entendê ocê entende. Se não é dotô, então é dentista Vai, home! Tenho um dente que me maltrata desde que não sei. Tira esse dente de mim.
Virei-me para ir embora, mas o bebum me mandou esperar.
– Ocê não é dotô nem é dentista. De branco assim... Já sei! Ocê é marinheiro.
Resolvi abandonar o navio e bater em retirada.
– Já vai embora? Eu disconfiava... todo de branco aqui nas laje, lua cheia, virada do ano... é Pai de Santo.
Saí dali e fui baixar em outro terreiro.
O novo ano começou e correu ao longo dos meses. Cheguei a ver o pobre homem em alguns botecos de Resende Costa. Até que um dia me contaram quem ele era e que tinha morrido. Eu fui a sua única companhia na virada do ano.
O bebum foi pro túmulo, mas me ensinou o seu pileque: a angústia de meus tropeços cotidianos. Em cada melancolia que não espanto, um médico que não cura. Em cada maçã que não mordo, um dentista frustrado. Em cada corpo que não aventuro, um marinheiro afogado. Em cada amor que não adivinho, um Pai de Santo sem feitiço.
São brancos em mim. São brancos de mim. Páginas anêmicas do meu delírio. Os dias do ano velho se foram, mas as páginas do meu poema embriagado... essas ficaram.
Todo de branco
16 de Janeiro de 2013, por José Antônio