O nariz do Cyrano de Bergerac não era somente um grande nariz. Era também um apurado órgão olfativo. Se por um lado soube se meter num romance que não era dele, por outro sabia extrair finas fragrâncias das palavras e das deixas que os momentos sempre deixam. Foi por causa do nariz do Cyrano que Cristiano papou a Roxana sem precisar cheirar a comida. Deu-se bem com o bedelhudo de Rostand.
No entanto, é necessário bom senso para usar o nariz de Cyrano. Uma vez, dei flores a uma mulher. Emocionada, ela me agradeceu. Inspirado, eu lhe disse:
– O presente reflete a presenteada.
Como me dei bem! E me dei tão bem que meu nariz cresceu e virei Cyrano. Foi assim: contei a minha história para o meu vizinho, que ficou tão entusiasmado a ponto de presentear sua paixão. Comprou para a garota dos seus sonhos um bonequinho do ET. A garota, sorrindo, agradeceu alegre. E ele, também sorrindo:
– O presente reflete a presenteada.
Corta Spielberg. Entra Resende Costa em 23 de junho de 1986. Aniversário da diretora Eunice Gomes. O Assis Resende preparou algumas apresentações artísticas para comemorar. Um dos números tinha sido preparado por mim e algumas alunas do Terceiro Ano do Magistério.
Estava quase na hora e eis que o retroprojetor que usaríamos emperrou. A escola Conjurados não pôde emprestar o seu. Onde arrumar um retroprojetor às nove da noite de uma segunda-feira gelada de Resende Costa?
Foi aí que uma das alunas lembrou que a... tinha um. A mulher, que já se mudou da cidade há muito tempo, não era professora, mas seu marido fazia conferências, daí o aparelho em sua casa. Tocamos pra casa dela, eu e a aluna.
A frente da casa mostrava que a ... era uma mulher requintada. Eu teria que ter jeito pra falar com ela. Quando a porta se abriu, apareceu uma mulher linda, elegante e séria. Como explicar que eu – que ela jamais tinha visto – queria o retroprojetor do marido dela?
Respirei fundo e a inspiração mais uma vez sussurrou ao meu ouvido: perguntei se ela era filha do fulano, seu marido. A ..., então, se derreteu e disse que era esposa. E completei:
– Não sabia que meninas menores de idade podiam se casar.
O retroprojetor estava garantido.
No caminho, a aluna parou na minha frente, impedindo o meu andar. Jogou os seus olhos dentro dos meus e, entre encantada e maravilhada, sorriu alisando suavemente o meu rosto:
– Você tem uma bicaria, hein?
Não era questão de bico, mas de nariz. Foi um Cyrano de Bergerac que falou essa frase num desenho animado que um dia eu vi. Guardei a cantada e apliquei no momento certo. De quem ouvi a frase? Foi daquele gato da TV, o Manda Chuva.
Pois é... as palavras seduzem. Porém, o bom sedutor deve saber que o poder delas não está tanto na boca que profere, mas no ouvido que recebe. Não interessa se as palavras vêm de um nobre espadachim da literatura francesa ou de um gato vagabundo do beco.
O que vale é descobrir as riquezas escondidas em quem ouve.