A linguagem faz umas trocas que são uma verdadeira loucura. Existe palavra com cara de plural e é singular: ônibus é uma delas. Termina em “s”, tem um monte de cadeirinhas, carrega uma porção de gente... e é singular. Quer outra? Arco-íris. Ele tem um ponto de partida e um ponto de chegada, termina num caldeirão cheio de pepitas de ouro, tem sete cores... e arco-íris é singular.
Tem também aquelas que são plural, mas têm cara de singular. Quando a gente fala de mais de um campus universitário, o plural é campi... Vamos visitar os campi... Fica igualzinho nóis vai e nóis fica.
Tem também aquelas que são plural, mas têm cara de singular. Quando a gente fala de mais de um campus universitário, o plural é campi... Vamos visitar os campi... Fica igualzinho nóis vai e nóis fica.
E a lata de plástico? Está cheio delas por aí. Com certeza, você já colocou alguma coisa dentro de um vidro de borracha. É lata ou é plástico? É vidro ou é borracha?
Certamente... esse tal do certamente tanto pode ser expressão de certeza absoluta quanto de dúvida relativa. Camaleão puro.
Rasteiras que a linguagem nos dá.
Acho que a linguagem faz essas trocas pra gente aprender que nada na vida é fixo. Nem a linguagem. Nem a vida. Tive um vizinho que queria ser marinheiro. Só andava de branco, tinha coleção de miniaturas de navios, lia tudo da força armada amante do mar, sabia de cor as datas das principais batalhas navais do mundo antigo, conhecia aqueles nós complicados que só marinheiro sabe dar... o cara até usava um quepe branco. Colocaram o apelido nele de Marujo. Explica-se: seu nome é Mário Araújo.
Pois não é que o Mário Araújo virou dono de mercadin
ho? E mais: como vende tudo no varejo, seu apelido agora é Marejo.
A vida trocou, a palavra trocou.
A vida trocou, a palavra trocou.
Há outros tipos de troca, aquelas em que sem querer mudamos as sílabas de ordem. Um dia, pedi num restaurante uma água minerola e uma coca-cal. Uma antiga namorada minha gostava de fazer miojo no forno de microfondas. Foi com essa namorada que um dia eu pedi uma pita de marguerizza.
Minha amiga Maria da Penha Pinto, exímia professora de matemática, contadora de tantos causos que muito me faziam rir... e era gostoso rir junto com a gostosa gargalhada da Maria da Penha. Saudades dos anos oitenta lá no Assis Resende...
Pois foi a Maria da Penha que me contou umas trocas que ela também fez. Um dia, ela foi falar que o portão estava fechado e saiu esta pérola: fechão portado.
E tem mais. Ao fazer o sinal da cruz, a minha amiga Maria da Penha, em vez de falar “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, rezou outra coisa. Enquanto fazia o gesto do sinal da cruz, Maria da Penha recitava solenemente: Um, dois, três, quatro! Nunca perguntei se ela falou “amém” no final.
Viver é perigoso, já lembrava o Guimarães Rosa. Falar também é. Porque, às vezes, quem troca é quem ouve, e não quem fala. E quem entende trocado, sempre troca errado. Por isso, é bom pensar uma, duas, três, quatro vezes em como falar alguma coisa importante. Depois, é bom rezar para que tudo dê certo. Igualzinho à Maria da Penha: Um, dois, três, quatro!