A tragédia das chuvas na Zona da Mata: despreparo das autoridades frente à emergência climática


Editorial

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No final de fevereiro, a região da Zona da Mata mineira sofreu impactos terríveis de uma tragédia histórica. Chuvas muito acima da média atingiram a região, principalmente Ubá e Juiz de Fora, sendo dias mais críticos entre 23 e 26/02. Rios transbordaram, encostas cederam e um mar de lama e pedras soterrou vidas, transformando as cidades num verdadeiro campo de batalha.

A destruição se estendeu por toda a parte. Ubá, importante polo moveleiro do estado de Minas Gerais, perdeu grande parte da indústria. Lojas e fábricas foram inundadas e destruídas pela água e pela lama. Em se tratando de número de mortos, somente Juiz de Fora e Ubá contabilizaram 73 vidas perdidas em meio a escombros e enxurradas. De acordo com as últimas estatísticas, 2025 e início de 2026 foram o período chuvoso mais letal dos últimos 20 anos no estado de Minas Gerais, totalizando 90 óbitos.

A tragédia das chuvas em Minas Gerais neste início de 2026 reacende o velho e conhecido debate sobre o despreparo das autoridades, em todas as esferas de poder, para lidarem com o problema. A crise climática oriunda do aquecimento global é uma realidade que vem atingindo o planeta como um todo, com ondas extremas de frio e calor, chuvas torrenciais, cenários de secas em lugares já condenados à desertificação. Ou seja, se nada for feito em curto prazo, o futuro será catastrófico para a humanidade.

Em 2023, o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) produziu e divulgou um levantamento que aponta os municípios brasileiros mais suscetíveis a desastres naturais, considerando inclusive as características geológicas locais. De acordo com o levantamento, foram identificados 1.942 municípios com pessoas vivendo em áreas de risco para problemas ocasionados pela chuva. Eram 8,9 milhões de pessoas vivendo nessas condições — ou 6% dos brasileiros, conforme reportagem do G1 publicada em 26 de fevereiro. “Entre todas as cidades, Juiz de Fora aparece como a 9ª com mais pessoas vivendo nessas áreas: cerca de 129 mil. Todas as cidades acima de Juiz de Fora são capitais ou parte de regiões metropolitanas — o que coloca a cidade mineira também como a que tem situação mais crítica no interior do país”, destaca a matéria.

Com dados em mãos, o que as autoridades e governantes fizeram para mitigar o problema e evitar mortes? Nada! Ora, um dos objetivos do Cemaden foi justamente alertar os responsáveis de plantão para as “tragédias anunciadas” a fim de se planejarem a destinar recursos, principalmente do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), para obras de prevenção, visto que a população mais atingida por enchentes e deslizamentos de terra é carente e habita áreas de morros, encostas e próximas de rios e córregos.

A leitura que se faz é que os governos – reitera-se: de todas as esferas públicas – agem somente após a tragédia, já com inúmeras vítimas fatais e rastros de destruição por todos os lados. O que se vê é escassez de planejamento e abundância de despreparo. Inexistem projetos habitacionais para atenderem populações mais carentes que não possuem condições de erguer suas moradias em lugares seguros. Falta fiscalização para coibir construções em lugares condenados. Falta conhecimento básico das autoridades para compreenderem e se sensibilizarem acerca de que a emergência climática e suas drásticas consequências não são meras ideologias políticas, mas uma realidade alarmante que está condenando o planeta e a humanidade ao risco extremo, a cenários apocalípticos!

Que findada a temporada das chuvas de 2026 – ou seu período mais crítico –, a tragédia que arrasou Juiz de Fora e Ubá não caia no esquecimento. Estamos em ano eleitoral. A democracia está nos oferecendo mais uma oportunidade para avaliarmos quais serão as melhores propostas para o país. É hora de acordarmos, separarmos o joio do trigo e jogarmos para o limbo do esquecimento da vida pública políticos populistas que almejam somente o poder e usam tragédias que ceifam vidas como plataformas para atingirem e manterem seus objetivos. Optemos por projetos de governo que, de fato, direcionam para políticas públicas sustentáveis, alicerçadas na ciência e no conhecimento. 

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