A urgência da ética na política brasileira


Editorial

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Enquanto este editorial estava sendo escrito, grande parte da população brasileira ainda tentava digerir o gosto amargo das últimas aberrações aprovadas pela Câmara Federal: a PEC da Blindagem e o PL da Anistia para os envolvidos na trama golpista do 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes, em Brasília, foram invadidas, depredadas e vilipendiadas por manifestantes raivosos que não aceitaram o resultado das eleições gerais de 2022. O imbróglio jurídico que envolve figuras proeminentes da política, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo STF a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, vem despertando reações aguerridas de parlamentares que apoiam os integrantes do chamado “núcleo crucial do golpe” e defendem uma anistia (perdão) ampla, geral e irrestrita para os condenados.

O que se vê nesta tentativa infame de manobra política, tanto da PEC da Blindagem quanto do projeto de anistia é, mais uma vez, representantes do Congresso Nacional agirem deliberada e escancaradamente para mudar leis em benefício próprio. No último dia 18, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) divulgou uma mensagem forte que aponta para a importância da ética na política. “Um contexto em que a própria democracia carece de atenção e fortalecimento, as palavras dos bispos do Brasil, e consequentemente da CNBB, iluminam o compromisso e a esperança por uma sociedade mais justa e fraterna, tendo a dignidade humana e o cuidado com a criação como protagonistas em suas pautas”, diz o texto. Sobre a chamada PEC da Blindagem que, se aprovada, como o próprio nome diz, blinda um parlamentar de ser processado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sem a autorização expressa da Câmara e do Senado em votação secreta, a CNBB questiona: “Quem protegerá a sociedade brasileira das incongruências do próprio Congresso Nacional?”

Estamos diante de um cenário de total falência das instituições políticas. Já não dá mais para separar o joio do trigo. As duas votações na Câmara confirmam que quando o interesse é salvar a própria pele, direita, centro e esquerda se dão as mãos selando um pacto de rompimento com a ética e com o interesse coletivo.

A população não pode assistir passivamente a esse desmanche da ética na política. Cabe a cada um de nós identificar e acompanhar de perto os passos de cada parlamentar que articula contra a democracia e a ética. “A sociedade deve permanecer atenta e vigilante, cobrando de cada representante do seu estado, deputados e senadores, o compromisso com a ética, a responsabilidade e a defesa da democracia”, conclama a CNBB.

É triste notar que a pouco mais de um ano das eleições gerais de 2026, temas relevantes para a sociedade brasileira, como reforma tributária, segurança pública, educação, saúde, infraestrutura e desenvolvimento econômico, sobre os quais o Congresso deveria estar se debruçando, deram lugar a pautas protecionistas que atendem somente a interesses individuais. Ao invés de os senhores deputados colocarem em escrutínio a urgência de votação de um projeto que anistia e concede perdão a bandidos que atentaram contra o patrimônio público e, contra o maior dos patrimônios, a democracia, porque não votam com presteza os projetos que representam os verdadeiros e urgentes problemas que assolam o dia a dia e a vida do povo brasileiro?

Se desejamos de fato mudar a sociedade, e teremos mais essa oportunidade em outubro de 2026 para fazê-lo, iniciemos promovendo uma faxina geral nas Casas (Câmara e Senado) daqueles que nos representam, excluindo delas quem atenta descaradamente contra a democracia e a ética.

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