Breve quadro da arquitetura de Resende Costa


Artigo

Guilherme Ribeiro*0

fotoDesenhos que retratam a arquitetura tradicional de Resende Costa, de autoria do estudante de arquitetura Guilherme Ribeiro (foto Raquel Resende)

Em 1970, Nestor Goulart Reis Filho publicava a primeira edição do livro “Quadro da Arquitetura no Brasil”, que propunha dar um panorama sintético da arquitetura brasileira desde o período colonial até meados do século XX, conectando as formas arquitetônicas às estruturas urbanas e sociais do país. No presente artigo, busco, de forma bastante resumida, fornecer um “quadro” da arquitetura de Resende Costa, expondo características arquitetônicas de desde os primórdios do Arraial da Lage até a contemporaneidade.

Do período colonial é datada a mais antiga ocupação da atual Resende Costa, cuja capela primitiva de Nossa Senhora da Penha de França foi erguida em 1749. O pequeno aglomerado, surgido a partir do comércio gerado pelo cruzamento de duas estradas, era usado pelos primeiros moradores apenas para reuniões e culto religioso. Nesse sentido, o Arraial da Lage teve uma ocupação mais dispersa e menos concentrada do que as cidades mineiras surgidas do ciclo do ouro.

Da época da colônia, ainda restam algumas residências exemplares. São casas que apresentam uma linguagem arquitetônica simples, ditada pela austeridade construtiva, tanto de forma como de acabamentos, com cheios predominando sobre os vazios. Quanto à sua implantação, elas eram construídas sobre o alinhamento das vias públicas com as paredes laterais nos limites do terreno, não se concebendo recuos ou jardins. Os dois tipos de habitação urbana eram a casa térrea e o sobrado. Do segundo, o único que restou intacto, com modificações, é o Solar dos Pinto, atual sede da Câmara Municipal, do Coral e Orquestra Mater Dei e do Sindicatos dos Trabalhadores Rurais de Resende Costa. Dentre as casas térreas sobreviventes, destacam-se, especialmente, a casa do inconfidente José de Resende Costa e a que supostamente pertenceu ao Padre Toledo.

No período imperial, vemos um desenvolvimento da arquitetura tradicional resende-costense. As casas passam a ter recuos laterais, com pés direitos mais avantajados, porões elevados e vãos maiores. As peças de madeira tornam-se mais esbeltas, uma influência do neoclassicismo. Ornamentalmente, a arquitetura civil também fica mais rica, com cimalhas trabalhadas em madeira e janelas decoradas com formas geométricas. Do fim desse período arquitetônico é o atual prédio do Fórum da cidade, antiga Casa dos Serviços Públicos e Detenção, do último quartel do século XIX, além de diversas residências e sobrados do centro.

Já na época da República, em 1911, Resende Costa conseguiu sua emancipação política e a partir disso a sua arquitetura se modernizou. As formas luso-brasileiras foram substituídas pelo estilo em voga da época, o ecletismo. Assim, houve o desenvolvimento de uma arquitetura baseada em princípios da arquitetura clássica, como a simetria e a proporção rígidas. Quanto à tradição clássica em Resende Costa, é interessante citar José Augusto de Rezende, que, em seu livro de 1920, “Pálidas Reminiscências”, chama a atenção para os novos prédios que vinham sendo construídos, os quais “parecem ficar lindos porque estão obedecendo a uma ordem”. Pode-se relacionar a chegada do ecletismo a Resende Costa também à implantação da EFOM (Estrada de Terra Oeste de Minas) na cidade vizinha de São João del-Rei, que possibilitou a importação de novos modelos e materiais para a arquitetura da região.

Dessa época, podemos destacar a Pensão do Boqueirão, último exemplar sobrevivente do ecletismo chalet da cidade. Também podemos citar o antigo Grêmio Literário, o Teatro Municipal, o Grupo Escolar Assis Resende, a Santa Casa (demolida) e a Casa Paroquial, além de outros edifícios residenciais pontuais, como exemplos do ecletismo resende-costense. Dentro da arquitetura religiosa, foi edificada em estilo neogótico, por um arquiteto italiano, a antiga Matriz de Nossa Senhora da Penha de França, em substituição à capela primitiva. A matriz neogótica teve vida curta, tendo sido depois substituída por uma neocolonial que, apesar do estilo, manteve a volumetria da anterior.

Após o ecletismo, a cidade viu o surgimento de uma arquitetura protomoderna ou art-déco. Um de seus primeiros exemplares é o Grupo Escolar Assis Resende que, por meio de um classicismo despojado, composto de formas simples e aliado a um tratamento dos elementos de modo maneirista, representa uma transição para o novo estilo. Algumas casas e comércios raros foram construídos seguindo essa tendência, a qual parece não ter obtido muita força em Resende Costa.

Chegando-se a meados do século XX com o modernismo, são introduzidos materiais e técnicas novas que permitem uma arquitetura mais livre, mas, ao mesmo tempo, mais internacionalista. Um ótimo exemplar do modernismo resende-costense é a Gruta de Nossa Senhora de Fátima, nas Lajes. Ao mesmo tempo, desenvolveram-se tipologias arquitetônicas que mantinham ainda características tradicionais, como se pode ver no conjunto de casas de platibanda escalonada, próximas à esquina do Zé Padeiro.

Atualmente, vivemos a arquitetura contemporânea em Resende Costa, representada por uma variedade de projetos que se filiam desde o estilo internacional, repletos de vidro e revestimentos claros, até revivalismos vernaculares e clássicos. Vê-se, por um lado, o apagamento e o esquecimento da paisagem e tradições arquitetônicas locais, e, por outro, a crescente verticalização e adensamento da cidade, acompanhada de problemas urbanos e estéticos crescentes. Desse modo, fica a importância de olharmos para o nosso passado arquitetônico e aprendermos com ele a fim de pensarmos sobre qual rumo devemos tomar em nossa arquitetura.

 

*Estudante de arquitetura da UFSJ.

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