Mistérios e lendas do Buraco do Inferno

Famosa caverna localizada nas Lajes de Cima ainda povoa o imaginário dos resende-costenses e encontra-se em lamentável estado de abandono


André Eustáquio


O geógrafo Adriano Valério sobre a pedra que dá acesso à caverna (Foto André Eustáquio)

O Mirante das Lajes de Cima é um dos principais cartões-postais de Resende Costa. Inúmeros turistas e moradores da cidade visitam diariamente o local que tem um dos mais belos pôr do sol de Minas Gerais. O enorme rochedo que aflora no mirante, e em outros pontos do município, há milhares de anos sofreu uma fratura geológica formando uma caverna chamada pelos resende-costenses de Buraco do Inferno. Até hoje inexplorada, a caverna ainda desperta curiosidade nos moradores da cidade e em quem visita a cidade e ouve falar dela. Em outros tempos, o Buraco do Inferno aguçava a coragem de quem se aventurava a adentrar a escuridão habitada por morcegos, lendas e mistérios.

Antes porém de falar sobre as lendas do Buraco do Inferno, é necessário entender como se formou a caverna. O geógrafo Adriano Valério Resende, diretor-técnico do IRIS (Instituto Rio Santo Antônio) e colunista de Meio Ambiente do Jornal das Lajes, explica o processo geológico que formou o Buraco do Inferno: “Geologicamente, a cidade de Resende Costa está localizada no extremo sul do embasamento do Cráton São Francisco, no chamado Cinturão Mineiro. Mais especificamente, na Suíte Alto Maranhão e no Corpo Resende Costa. Esse é composto por rochas granito-gnáissicas do proterozóico, com idade de 2,1 bilhões de anos. Na região existem vários afloramentos de granitóides, como é o caso das Lajes. Esses afloramentos (nome dado quando a rocha fica exposta na superfície) são fraturados e com os deslocamentos e afastamentos das rochas, ao longo de milhares de anos, formam-se as cavernas, como a que temos nas Lajes de Cima, chamada de Buraco do Inferno”.

As primeiras edificações do antigo Arraial da Lage foram construídas sobre essa rocha, que se aflora também em outros pontos da cidade, conforme esclarece Adriano Valério: “Curiosamente, as edificações do centro da cidade foram construídas em cima de uma gigantesca pedra, estando rodeadas por três afloramentos, chamados Laje de Cima ou da Matriz, Laje de Baixo ou do Quartel e a Laje da Cadeia, situada atrás do Fórum – antiga cadeia – e atualmente inacessível aos moradores e turistas”. De acordo com o geógrafo, existem no município outras cavernas onde o granito aflora.

 

Mitos e lendas

Os tempos mudaram e as diversões também. Muito antes do surgimento do Facebook e do Whatsapp, que vêm consumindo o tempo e a criatividade das pessoas, a diversão da grande maioria da população de Resende Costa era a brincadeira e a convivência nas lajes. As Lajes de Cima e a de Baixo ficavam lotadas de crianças soltando pipas, brincando de pique e correndo ao ar livre. No entanto, o maior desafio, principalmente para os adolescentes, era se aventurar a desbravar o Buraco do Inferno.

Os mais velhos diziam que o lugar abriga uma enorme serpente, enrolada numa imagem de Nossa Senhora, que guarda um acesso subterrâneo à igreja matriz de Nossa Senhora da Penha. “Desde criança sempre ouvia as pessoas falarem a respeito do Buraco do Inferno, inclusive quanto às lendas. Por exemplo, haveria uma outra entrada na esquerda que foi fechada por pedras, porque uma pessoa entrou e não saiu, serpentes, imagem de Nossa Senhora, acesso também pela igreja matriz, além de outras mais distantes”, recorda-se Marcos Alves de Andrade, resende-costense e juiz de Direito da Comarca de Barbacena.

O difícil acesso à caverna, devido às pedras e vegetação espessa, sempre dificultou a ida de pessoas ao local. No entanto, isso alimentava ainda mais a sede de aventura dos jovens da cidade. “Na década de 1960, adolescente, eu sempre visitava o local, acompanhado ou sozinho, inclusive porque um dos meus irmãos morava em uma casa ao lado. Algumas vezes eu descia pelo buraco existente entre as pedras para atingir aquela área onde existe a entrada da caverna. Adentrando nesta um pouco ou até o final, sem continuar, pois tinha medo”, conta Marcos Alves, que um dia resolveu reunir os colegas, tomou coragem e entrou na caverna. “Ainda adolescente, eu e alguns colegas resolvemos ‘explorar’ o Buraco do Inferno. Deixamos o mais novo do lado de fora segurando a ponta de um barbante para, no caso de algum acidente, fosse avisado e procurasse socorro. Assim, alguns com tochas e lanternas e desenrolando o rolo de barbante, à medida que entrávamos, fomos penetrando na caverna, passando por espaços estreitos depois da entrada maior. Havia muitos insetos, como aranhas ou caranguejos, que eram espantados pelo calor do fogo das tochas. Havia água límpida em alguns locais”.

A exploração de Marcos Alves chegou ao limite, assim como a de muitos resende-costenses, inclusive este repórter, que tiveram a coragem de entrar no Buraco do Inferno: “Quando atingimos um local em que existia uma entrada larga, porém, muito baixa, dando para ver que do outro lado poderia haver uma sala de uns 10 metros quadrados, com uma pedra maior no centro e outras menores em volta, ouvimos um estampido que veio de trás e barulho de pedras caindo. Ocorre que um outro adolescente, que havia entrado em seguida a nós, teria dado um tiro de garrucha no teto da caverna maior, da entrada, ocasionando uma grande revoada de morcegos e algumas pedras caíram. Ficamos com medo e saímos logo do local. Outras vezes adentrei naquela caverna maior, da entrada, mas, jamais fui mais ao fundo, como naquele dia”.

Não se sabe ao certo qual a extensão do Buraco do Inferno, onde ele termina, quantas salas há na caverna. Será que ele vai até à igreja matriz? Por que e quando surgiu o nome Buraco do Inferno? Alguém, além de morcegos, chegou a habitar as profundezas da escuridão em tempos remotos? Não se sabe. “Considerando principalmente o acesso à entrada da caverna através de um buraco pequeno no meio de pedras menores, a sala com as pedras e outras circunstâncias, penso que homens pré-históricos ali viveram, muito tempo antes dos índios que povoaram nossa região”, opina o juiz Marcos Alves, que diz ainda: “Evidentemente que minha então mente de criança ou adolescente pode ter criado imaginações na ocasião e que hoje me trazem lembranças”.

 

Abandono

As gerações recentes dos resende-costenses abandonaram o Buraco do Inferno. Os jogos eletrônicos, a televisão e as conversas através de aplicativos nos celulares substituíram as brincadeiras e a convivência nas lajes. Com isso, outros aventureiros tomaram conta da caverna: os urubus. Eles são os atuais guardiões do local. Quando há filhotes em seus ninhos, eles se agigantam frente a quem tenta chegar próximo à boca da caverna, que exala um cheiro insuportável de animal morto.

Urubus, mato, espinhos e, para agravar ainda mais a situação de abandono, esgoto doméstico escorre próximo à entrada do Buraco do Inferno, vindo de imóveis vizinhos às lajes. Se nada for feito para a retirada imediata do esgoto nas lajes, o acesso ao Buraco do Inferno vai ficar totalmente obstruído.

Assim como em diversos pontos das Lajes de Cima, próximo ao Buraco do Inferno há muito lixo, como vidros quebrados, preservativos, garrafas pet, papéis etc. “Fiquei triste em ver uma foto atual da área do Buraco do Inferno na internet, pois está suja e sem condições de permitir um acesso seguro”, lamenta-se Marcos Alves.

 

Revitalização

Uma futura revitalização das Lajes de Cima, como se espera do poder público local há bastante tempo, poderia contemplar também o Buraco do Inferno. O geógrafo Adriano Valério acredita no potencial turístico do local e pede sua revitalização: “O Buraco do Inferno tem potencial turístico, sim. É preciso criar estrutura para o acesso das pessoas, promover uma limpeza, instalar iluminação na caverna, podar a vegetação e colocar placas de sinalização”.

O juiz de Direito Marcos Alves de Andrade também defende a revitalização das lajes e do Buraco do Inferno. Ele sugere algumas ações: “Minha sugestão é a exploração consciente, com preservação no que for possível do meio ambiente, dos animais, principalmente lagartixas e lagartos, e plantas existentes nas proximidades do Buraco do Inferno. As ações poderiam se dar através de concessão, de tal forma que o poder público nada gastasse ou, pelo contrário, até usufruísse de valores vindos com impostos, que poderiam ser utilizados em outras áreas das lajes. Assim, minha sugestão seria: iluminação das lajes até o Buraco do Inferno, inclusive naquela área antes da entrada; construção de escadas e/ou rampas, com corrimões, para fácil acesso até a entrada; emprego de pessoas como guias; lanchonete; banheiros, entre outros entretenimentos, quem sabe até mesmo um teleférico. A beleza e a fama do local já existem há muito tempo. Façamos uso delas”, conclui o juiz.

As Lajes de Cima encantam a todos que a visitam, especialmente pela beleza do horizonte que descortina até onde os olhos se perdem. Abaixo dos olhos e longe dos raios do sol, encontram-se escondidos nas profundezas da enorme rocha de granito as lendas e os mistérios do Buraco do Inferno. Um lugar enigmático que, apesar de abandonado pela geração atual e pelo poder público, ainda povoa o imaginário e as lembranças de muitos resende-costenses.

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