Ao longo dos últimos 23 anos o Carnaval vem ocupando destaque nas capas das edições de fevereiro/março do JL, o que se repete em 2026 na ed. 274. Considerada a maior festa popular do Brasil, e de Resende Costa, o evento traz consigo elementos das diversas culturas regionais e locais: o samba do Rio de Janeiro e de São Paulo, o frevo do Recife, o axé da Bahia... E todas essas misturas, como num vibrante e democrático sincretismo cultural, agitam também os foliões nas ruas das cidades mineiras.
O carnaval de Resende Costa começou nos primórdios da década de 1950. Um grupo de amigos e amigas, contrariando os apelos e as orações do então pároco, padre Nelson Rodrigues Ferreira, resolveu sair fantasiado pelas ruas da cidade. Motivo de escândalo para a comunidade católica da época, o movimento carnavalesco resende-costense superou as condenações morais, fez frente aos incansáveis retiros espirituais promovidos pelo padre Nelson a fim de enfraquecer a folia nas ruas, e ano após ano foi se concretizando até o pároco por fim se render. “Registro com bastante melancolia e tristeza o movimento carnavalesco nesta cidade, de ano para ano, cada vez mais corrompido e barulhento, e a pouca frequência dos homens e dos jovens às adorações das Quarenta Horas”, escreveu padre Nelson, em 1978, no Livro de Tombo da Paróquia de Nossa Senhora da Penha de França.
A festa de Momo teve diferentes endereços em Resende Costa. Desde os tradicionais e inesquecíveis bailes no Teatro Municipal até a mudança definitiva, no início da década de 1980, para a rua Gonçalves Pinto, popularmente chamada pelos resende-costenses de “Avenida”. As gerações de foliões que lideraram o carnaval na cidade deixaram legados que hoje conceituam, pelo menos em parte, a identidade cultural da festa. E um desses elementos é o carnaval de rua ainda realizado na AVENIDA Gonçalves Pinto.
Desde sua fundação em 2003, o JL vem acompanhando e noticiando a realização do Carnaval de Resende Costa e, mais recentemente, de algumas cidades da região, com especial destaque para São João del-Rei (leia também nesta edição reportagem sobre o carnaval cultural de São João del-Rei). Além de registrar a alegria dos foliões, o jornal acompanha de perto as mudanças que inevitavelmente impactam na aprovação, ou não, da festa. E por se tratar de um veículo de imprensa formador de opinião, o JL nunca se furtou em eventualmente apontar recorrentes desvios nas tradições que caracterizam o evento. Sempre atento às manifestações dos foliões, o jornal procura transcrever, através de reportagens, entrevistas e artigos de opinião, críticas e também elogios de quem de fato faz o Carnaval: o folião.
Com o intuito de ir de encontro aos anseios da geração atual, de alguns anos para cá o carnaval de Resende Costa vem passando por mudanças que estão modificando – para o bem ou para o mal? - o seu formato tradicional. A Avenida, que antes contava apenas com austeras arquibancadas e ornamentação, além de uma simples e improvisada estrutura de madeira para receber as caixas de som, hoje tenta comportar uma complexa estrutura formada por tendas, palco, banheiros químicos e barracas de alimentação. A programação musical não mais se restringe às tradicionais marchinhas, aos sambas-enredo e axé reproduzidos em vinil e cds. Os foliões de hoje assistem a shows com bandas de diversos ritmos e apresentações de Djs. Há quem goste do atual formato, mas também existem aqueles ainda saudosos dos carnavais de outrora e não aceitam as novas tendências. É a democracia de Momo reinando na avenida.
Fato é que o Carnaval, como festa popular por excelência, é dinâmico e tende a seguir as tendências contemporâneas. Entretanto, sem deixar morrer as tradições enraizadas há décadas na cultura local. Prova disso é o pré-carnaval. Ao todo, 8 dias de desfiles de blocos caricatos arrastam uma multidão de foliões ao som das tradicionais marchinhas executadas pela fanfarra Furiosa, acompanhada pelos ritmistas da bateria do Rifugo.
Enfim, em Resende Costa o Carnaval vem dialogando com a tradição e as novas tendências, mostrando a força e ao mesmo tempo o dinamismo da cultura popular. O JL continuará acompanhando e apoiando essa linda manifestação cultural do nosso povo, mantendo sempre a responsabilidade editorial de independência, imparcialidade e equilíbrio.