A Teia do Mundo

Contra o tempo

16 de Junho de 2016, por José Antônio 0

Existe um quadro forte do pintor espanhol Goya, no qual Cronos devora seus próprios filhos. Somos filhos do tempo e somos devorados por ele. O tempo não perdoa, ele é insaciável. Onívoro.

Quanto a mim, devo ser um tanto indigesto para o tempo. Ele me devora, mas custa a engolir. Deixo desprender de mim uma espécie de fel. Esse amargo se chama... atraso.

Meu relógio não marca hora e sim segundo, pois sou sempre o segundo a chegar. Já peguei táxi pra correr atrás de ônibus... já cheguei depois da noiva no casamento e eu era padrinho...

No entanto, confesso que ando fazendo algumas coisas para ter uma convivência pacífica com os ponteiros. Houve uma época em que eu andava com o meu relógio vinte minutos adiantado. Mas não funcionou: eu sempre me lembrava de que ele estava vinte minutos na frente. O relógio adiantado foi uma coisa que não adiantou.

Despertador foi uma porção. Eu tinha três deles ao lado da minha cama. O primeiro despertava duas horas antes, o segundo uma hora antes e o terceiro meia hora antes... e eu me levantava meia hora depois. Tive um galo também, o Dedéu. Sozinho e solteirão. Foi só eu arrumar umas duas penosas cacarejantes que o Dedéu criou alma nova e pôs-se a cantar. Mas como viu que seu dono não seguia patavina o horário de seus recitais cocoriqueiros, chutou o balde e passou a cantar quando desse na telha. Até as galinhas estranharam. E esfriaram-se com ele.

Outra artimanha que arrumei foi fazer promessa pra mim mesmo: “se eu chegar atrasado à reunião, eu dou cinquenta reais pra uma instituição de caridade”... “se eu chegar atrasado ao cinema, eu dou cem reais para aquela outra instituição”... Tive que parar com isso, claro. Eu estava me transformando no Benfeitor da Pindaíba, gastando mais dinheiro pra pagar minhas promessas do que pra pagar minhas contas.

Essa minha fidelidade ao atraso vem de longe. Um dia, minha mãe me contou que o meu parto foi com fórceps. Devo ter me atrasado pra sair e então me puxaram pra fora. Se eu fosse soldado, a guerra ideal pra mim seria a Guerra dos Cem Anos, pois eu teria uma boa margem pra chegar ainda a tempo.

Fui atrás do meu amigo Marcus Vinicius de Andrade Peixoto pra conversar com ele sobre o meu problema com o atraso. Marcus Vinicius de Andrade Peixoto é meu amigo filósofo, pesquisador dos ecos abstratos das síncopes do Olodum nas incursões existencialistas de Kierkegaard. Está desenvolvendo, no momento, um artigo onde ele defende a influência do rebolado da música axé nas ataxias do pensamento ocidental.

Marcus Vinicius de Andrade Peixoto me recebeu com aquele seu jeito calmo e mais parado do que ponto final. Nem notou que cheguei atrasado.

Depois que lhe falei do meu problema, meu amigo fechou os olhos e começou a pronunciar vagarosamente as suas frases no fluxo da preguiça:

– Não se queixe de você sempre chegar atrasado. Há uma grande vantagem nisso.

– Vantagem? Qual?

 

– Como você só chega atrasado, você morrerá atrasado. Vai viver ainda uns minutos a mais.

Rifa

12 de Maio de 2016, por José Antônio 0

Sorte no jogo, azar no amor... Não sei se é bem assim. Já vi gente ganhando na loteria e vivendo um conto de fadas. Por outro lado, e se o amor for um jogo?

Difícil pensar numa lógica, pelo menos plausível, para essa questão. Como difícil também é a sorte sorrir pra mim na rifa. Não acerto uma. Eu já compro a rifa sabendo que é fundo perdido. Nem olho a data do sorteio. Não vai sair pra mim mesmo...

Quem é sortuda é a Zizica, empregada da minha velha e querida Tia Zenóbia... querida e velha. Pois a Zizica abiscoitou ontem na rifa uma televisão novinha. Pôs lá no seu quarto. Quem sabe?

O sonho da Zizica é casar-se com o Ozório, padeiro aposentado e muito sério. Tímido. Ela já ganhou uma porção de coisas em rifas, mas não usou nada ainda. Está tudo guardado em seu quarto. Um verdadeiro enxoval vindo de números premiados. No entanto, o Ozório mesmo a Zizica não tira, coitada. Mas ela mantém o forno sem esfriar e não deixa para a esperança fermento faltar.

Assim como eu. Não sei se por teimosia ou por burrice ou por uma esperança recôndita que não conheço, sempre acabo comprando uma rifa. Esqueço que não acerto nada. Se bem que, a bem da verdade, eu já ganhei alguns premiozinhos em rifa. Mas é tudo coisa que não tem nada a ver.

Uma vez, fizeram uma rifa só de produtos de limpeza e de higiene. Adivinhe pra quem saíram os trinta rolos de papel higiênico? Ir ao supermercado, pegar os muitos rolos (eram dos mais baratos, os tais “lixinhas”), passar no caixa, explicar a situação com todo mundo olhando, sair empurrando o carrinho com a lotação esgotada, inclusive para a porta dos fundos? Nem fui lá pegar.

Outra vez foi a rifa pra ajudar uma instituição. Ganhei oito mamadeiras e dez bicos.

Lembro-me da Laurinha. Ela com onze anos e eu com treze. Namoro de criança. A única coisa que eu conseguia pagar pra Laurinha era picolé. Eu ficava sem o meu, só podia comprar um. E era pra ela. Fingia que o meu dente doía por causa do gelado. Mas ela sempre me deixava dar uma mordidinha.

Um dia, estavam rifando uma pulseira. Laurinha ficaria linda com ela. Mas como comprar a rifa? Então eu me lembrei que tinha um dinheirinho sobrando de um projeto fracassado de comprar a máscara do Batman. Peguei boa parte dele e comprei a rifa.

Não saiu pra mim.

Acabei contando tudo pra Laurinha, na praça em frente à igreja. Ela olhou enternecida pra mim e, no canto de um de seus olhos, uma lágrima de gratidão se alojou, formando uma gota. Aquela gota brilhou mais do que a pulseira que eu queria dar pra ela. E ganhei um beijinho puro.

Pensava eu que rifa era sigla: Realmente Impossível Fazer Acerto... RIFA! Sei lá... Pra mim, não.

 

Sorte no amor.

Desejos malucos

14 de Abril de 2016, por José Antônio 0

Sempre nutri uma simpatia pelo Schopenhauer. Não acho que ele seja tão pessimista assim. Se fosse, não escreveria coisa alguma, pois quem escreve é movido pela expectativa de ser lido e comentado por alguém. E isso é um tipo de otimismo.

Uma das coisas que me fascina no velho mestre é a sua discussão do desejo e do sofrimento. O homem está condenado a sofrer, pois o que move o ser humano é o desejo. Ora, desejamos o que não temos, logo... sofremos por isso. Como é o desejo que nos impele a viver, temos que desejar, temos que sofrer, senão a vida fica estagnada. Deve ser o tal do Vale de Lágrimas.

Nas cercanias do Vale de Lágrimas, já ouvi histórias das mais malucas envolvendo o desejo. Meu amigo Leovaldo, sempre cismado, uma vez me contou um desejo antigo seu: gostaria de ser mágico de circo. Ponderei que ele pode achar vários livros que ensinam a fazer mágicas. É só comprar um, procurar uma festinha de família e fazer uns numerozinhos com a cartola. Mas não. Tem que ser num circo.

Até a minha Tia Zenóbia, filósofa macróbia e de talento sagaz para as sutilezas da vida, já me confessou um desejo secreto: pular de paraquedas, mas de cabeça pra baixo.

Grávidas, então... Elas são prenhes dos mais inusitados desejos. Já vi mulheres grávidas com as mais estranhas vontades de comer o absurdo: chantily com coca-cola, sabonete ralado, pó compacto, pizza de jiló com cobertura de banana, miojo com acarajé, café com talco...

Cá comigo, também carreguei e carrego alguns desejos malucos. Uns eu já abandonei, uma vez que foram consumidos pela própria esquisitice. Dois deles eram da minha infância: queria ser dono de funerária, coveiro e sineiro de igreja. Kit completo do funeral. Também andei desejando ser o Batman. Essa eu levei pra frente, mas o riso alheio me levou pra trás.

No entanto, há uns desejos malucos que me perseguem até hoje. Por exemplo, tenho uma vontade louca de ter um caminhão. Conservá-lo caprichosamente na garagem, passar uma flanela nele, sair com o meu caminhão só nos fins de semana para um passeio tranquilo. Outro desejo que tenho é o de ter um guarda-chuva amarelo. Bizarrice, confesso, mas fazer o quê? Sei lá se eu sairia com o meu guarda-chuva amarelo na rua. Acho que não. Mas só de saber que eu consegui ter um guarda-chuva amarelo eu já ficaria contente.

O último desejo maluco que me assaltou foi uma dessas vaquinhas de borracha. Elas são pequenas e baixas, tem umas azuis e outras vermelhas. De vez em quando, aparece alguém vendendo uma porção delas por aí. Um dia, ainda vou comprar uma dessas vaquinhas de borracha. Quando conto isso, riem de mim... principalmente do nome que vou dar a ela: minha vaquinha vai se chamar Farofa. Nem ligo.

 

O vale das lágrimas é um mistério. Desejar também é um mistério. Se um dia eu conseguir o meu caminhão, abrir o meu guarda-chuva amarelo e comprar a Farofa, eu vou ter que começar a desejar outras coisas. Caso contrário, minha vida perderá o sentido, pois deixarei de desejar. Seria, então, o tempo de eu precisar do agente funerário, do coveiro e do sineiro pro meu enterro. Tô fora! Nem que eu tenha que ressuscitar o Batman!  

Apelidos

17 de Marco de 2016, por José Antônio 0

– Wandekerleson, você já reparou que coisa mais sem graça? Nós dois não temos apelidos.

– Como assim?

– Eu acho uma gracinha quando um casal se trata por aqueles apelidos carinhosos... benzinho, minha flor, meu gato, chuchu, uva...

– Não vejo tanta graça nisso.

– Você nunca me chamou de nada. É sempre Luzineide pra cá, Wandekerleson pra lá... Não tem tempero, Wandekerleson. Tá faltando apelido.

– E o que você quer que eu faça, Luzineide?

– O meu sonho é dizer “te amo” e falar um apelido. Coisas do tipo: Te amo, Chuchu. E depois ouvir você me dizer: Também te amo, Docinho. E aí, as nossas conversas seriam mais carinhosas: Tchau, Chuchu!... Tchau, Docinho!... Vamos jantar fora hoje, Chuchu?... Vamos, Docinho!... Ai, ai...

– Luzineide, esqueça. A realidade é esta: nós não temos apelidos.

– Mas a gente pode mudar a situação. Ora, Wandekerleson, o homem já foi à lua. Será que a gente não consegue criar um apelido?

– Que tal Lua Cheia?

– Tá me chamando de gorda?

– Você não falou de homem indo à lua? Então, você é a minha lua cheia de paixão.

– Nada a ver. Faz o seguinte: primeiro as frutas. Você poderia me chamar de pera.

– Não iria dar certo. Já pensou viver com uma mulher deses...perada? A não ser que a gente se trate por Pera e Peru. Seria mais excitante.

– Grosso!

– Tá bom, do jeito que você vive reclamando, vou te chamar de flor: Samambaia Chorona. Satisfeita?

– Também vou te chamar de flor: Cacto.

– A gente vai acabar brigando por causa dessa bobagem de apelido. Depois você não gosta que eu fique falando... mas esse seu papo é frescura de mulher. Ninguém combina apelido. Apelido nasce naturalmente.

– Você é naturalmente estúpido, Wandekerleson.

– Vai engrossar, é?

– Boçal!

– Idiota!

...

– Sabe que você é a idiota mais lindinha que eu conheço?

– E você é o boçal mais fofo que eu já vi.

– Me dá um beijo.

– Mmmm!... Te amo, Boçal.

 

– Mmmm!... Te amo, Idiota.  

Ao pé da página

16 de Fevereiro de 2016, por José Antônio 0

Há bilhetes em que a escrita transcende o espaço físico que lhe é destinado no papel. Para esses casos, o bilhete muitas vezes apresenta aqueles avisos ao pé da página: Vire... Continua... No verso... Leia atrás...

Tem gente que, além desses avisos, ainda desenha uma pequena seta indicando que o leitor deve ler atrás do bilhete. Zelo pragmático.

A vida não tem o costume de me mandar cartas longas. Os recados que recebo da vida – e são muitos – não passam de bilhetes rápidos e circunstanciais. Recados geralmente vindos de detalhes que muita gente não vê. As mensagens são curtas. Longo é o meu parar sobre elas. Chamo isso de encantamento.

Paro tanto nesses recados e detalhes que acabo percebendo que a vida também deixa alguns desses avisos para mim ao pé da página de seus bilhetes.

Uma vez, presenciei a morte de alguém. Foi um momento rápido e suave. Seus olhos não se fecharam totalmente e seus lábios esboçavam um leve sorriso tranquilo. Parecia que a pessoa contemplava algo maravilhoso e pleno de paz. Então eu li, nesse bilhete da vida, um aviso ao pé da página:

Continua...

Houve momentos em que a vida me mandou bilhetes falando de detalhes que enganavam pela ilusão da beleza fugaz, pelo engodo das promessas sem futuro, pela rasteira da novidade sem passado. E lá embaixo, ao pé da página, o aviso:

Leia atrás...

Um dia, a dor me visitou. E a visita virou invasão. A realidade sufocou meu coração, mas o sonho o deixava respirar. E meu coração viu, impotente, o saque da dor ao meu mundo. E minha paz foi embora no detalhe da lágrima cinzenta que as árvores choram quando veem suas folhas se desfazerem na indiferença do outono. E lá embaixo, mais uma vez, ao pé da página do bilhete:

Continua no verso...

E continuei no verso, pois aprendi a fazer poesia.

O amor também envia seus bilhetes. E ele também deixa os seus avisos ao pé da página. Se minha amada lesse os avisos que meu amor deixa ao pé da página dos seus bilhetes, ela entenderia os detalhes que dispensam a obra. 

Ah, minha amada, é ao pé da página que estou, pois é aos teus pés que me coloco.

Leia atrás... Atrás de cada recado uma sinfonia de entrelinhas, um coral de sussurros, o meu íntimo mais verdadeiro disfarçado de vozes outras.

Continua... A tua nudez cristalina e ardente continua nas auroras do meu desejo, invade a noite que foge do meu sono, pinta luas de rubi no teto da minha ânsia.

Continua no verso... Continuam debaixo de minhas unhas pedacinhos de tua pele e o sal de teu suor, continua em meu ouvido o gemido de teu voo e o riso de teu repouso, continua em minha retina a tua nudez que – embora tímida – arranca o pudor da minha busca.  

 

A mulher que da bruma se fez carne, osso e sangue... continua no verso.