Ao pé da página
16 de Fevereiro de 2016, por José Antônio 0
Há bilhetes em que a escrita transcende o espaço físico que lhe é destinado no papel. Para esses casos, o bilhete muitas vezes apresenta aqueles avisos ao pé da página: Vire... Continua... No verso... Leia atrás...
Tem gente que, além desses avisos, ainda desenha uma pequena seta indicando que o leitor deve ler atrás do bilhete. Zelo pragmático.
A vida não tem o costume de me mandar cartas longas. Os recados que recebo da vida – e são muitos – não passam de bilhetes rápidos e circunstanciais. Recados geralmente vindos de detalhes que muita gente não vê. As mensagens são curtas. Longo é o meu parar sobre elas. Chamo isso de encantamento.
Paro tanto nesses recados e detalhes que acabo percebendo que a vida também deixa alguns desses avisos para mim ao pé da página de seus bilhetes.
Uma vez, presenciei a morte de alguém. Foi um momento rápido e suave. Seus olhos não se fecharam totalmente e seus lábios esboçavam um leve sorriso tranquilo. Parecia que a pessoa contemplava algo maravilhoso e pleno de paz. Então eu li, nesse bilhete da vida, um aviso ao pé da página:
Continua...
Houve momentos em que a vida me mandou bilhetes falando de detalhes que enganavam pela ilusão da beleza fugaz, pelo engodo das promessas sem futuro, pela rasteira da novidade sem passado. E lá embaixo, ao pé da página, o aviso:
Leia atrás...
Um dia, a dor me visitou. E a visita virou invasão. A realidade sufocou meu coração, mas o sonho o deixava respirar. E meu coração viu, impotente, o saque da dor ao meu mundo. E minha paz foi embora no detalhe da lágrima cinzenta que as árvores choram quando veem suas folhas se desfazerem na indiferença do outono. E lá embaixo, mais uma vez, ao pé da página do bilhete:
Continua no verso...
E continuei no verso, pois aprendi a fazer poesia.
O amor também envia seus bilhetes. E ele também deixa os seus avisos ao pé da página. Se minha amada lesse os avisos que meu amor deixa ao pé da página dos seus bilhetes, ela entenderia os detalhes que dispensam a obra.
Ah, minha amada, é ao pé da página que estou, pois é aos teus pés que me coloco.
Leia atrás... Atrás de cada recado uma sinfonia de entrelinhas, um coral de sussurros, o meu íntimo mais verdadeiro disfarçado de vozes outras.
Continua... A tua nudez cristalina e ardente continua nas auroras do meu desejo, invade a noite que foge do meu sono, pinta luas de rubi no teto da minha ânsia.
Continua no verso... Continuam debaixo de minhas unhas pedacinhos de tua pele e o sal de teu suor, continua em meu ouvido o gemido de teu voo e o riso de teu repouso, continua em minha retina a tua nudez que – embora tímida – arranca o pudor da minha busca.
A mulher que da bruma se fez carne, osso e sangue... continua no verso.
À primeira vista
13 de Janeiro de 2016, por José Antônio 0
Não é à toa que a justiça é cega. Se ela enxergasse, iria julgar pelo que visse. E é aí que está o risco: julgar pelo que se vê.
As aparências não enganam: quem engana são os olhos. Você viu um boi de longe e pensou que fosse um cavalo. Será que o boi mudou a aparência para cavalo só para enganar você? Claro que não! Ele continuou boi o tempo todo. Os seus olhos é que viram um cavalo.
Daí, a justiça com a venda nos olhos. Ela julga apenas pelo que ouve. Ora, direis: Na certa, perdeste o senso... por que ela às vezes julga errado? Realmente não sei o que chega aos ouvidos da justiça. Talvez ela ouça estrelas... Mas isso já é outra história.
Há momentos em que precisamos colocar uma venda nos olhos. Não necessariamente para julgar melhor, mas necessariamente para não julgar porcaria nenhuma.
Ano passado mesmo, não tem muito tempo: elevador cheio e quem eu vejo um pouco à minha frente? Maria José! Amiga de infância, andou sumida, apareceu, sumiu e agora ali, na mais inesperada coincidência, perto de mim e num elevador. Assim de costas, olhando bem, dava para comprovar. Seus cabelos, o formato da cabeça, o jeito de olhar para cima... Era a Maria José.
Abri o sorriso e rasguei o silêncio burocrático do elevador:
– Maria José!
Não era a Maria José.
Fiquei na minha, como se deve ficar numa situação dessas: idiotizado, sem cara e com vontade de sair correndo.
O pior é que não aprendo. Vivo proporcionando quadros lastimáveis que surpreendem os mais variados públicos. Não preciso de venda, mas de uma viseira. Semana passada, quis ser simpático com a moça que me atende na cafeteria. Enquanto ela preparava o meu café, eu a observava: olhos tristes, semblante cansado, mãos apressadas, cabelo preso, vestido baby-look, corpo cheio, barriga proeminente... Grávida!
Minha voz se enfeitou de simpatia, de vontade de alegrar a futura mamãe. E ornejei a pergunta:
– Pra quando é o seu bebê?
Ela retrucou, num misto de espanto e indignação:
– Eu não estou grávida!
Fiquei parado, sem falar, olhando pra ela. Foi a única vez em minha vida que consegui pensar em absolutamente nada.
Depois de muitos segundos assim, virei as costas e fui embora, deixando a minha honra no coador.
Não volto lá nunca mais!
Porém, tem hora que a consciência pesa: não paguei o café...
Cachorrinho
17 de Dezembro de 2015, por José Antônio 0
Eu estava saindo do banco quando fui surpreendido por dois olhos que me olhavam por baixo, atentos a todos os meus movimentos. Atravessei a rua e os dois olhos me seguiram, com se estivessem esperando alguma coisa de mim, algo que eu tivesse prometido.
Achei simpático o cachorrinho e estalei os dedos. Pronto. Acabou ali o meu sossego. O cãozinho veio que nem um raio. Estacou sentado à minha frente, olhando para cima, inquieto.
Esse cachorro pensou que eu iria lhe dar comida – ponderei, já andando.
O cachorrinho veio atrás, me cobrando com os olhos, insistentemente. Para me livrar dele, apertei o passo e atravessei a rua. Ele, então, me olhando de longe, desistiu. Voltou-se e foi embora cabisbaixo, cheirando o chão. Devia estar com fome um tempão e tinha visto em mim a salvação do seu estômago, pelo menos para aquele dia.
A minha consciência ganiu e resolvi fazer uma boa ação. Parei numa lanchonete, peguei um petisco e fui atrás do cachorro. Não o vi mais em frente ao banco. Olhei ao redor, debaixo dos carros, dentro das lojas... nada.
Olhei mais uma vez e pude afinal vê-lo ao longe, virando a esquina lá na frente. Saí em disparada para alcançá-lo, mas a disputa era desigual: enquanto eu corria com duas pernas, ele corria com quatro. Quando cheguei à esquina, só vi um lixo revirado. Ele estivera ali, procurando o que comer.
Contornei o quarteirão e o divisei mais longe ainda, indo pra não sei onde. O jeito foi pegar um moto-táxi:
– Siga aquele cachorro!
O motoqueiro me olhou desconfiado:
– Quem é que te assaltou, cara?
– Não! É cachorro mesmo. É bicho de verdade. Aquele lá... quer dizer... já não está mais lá. Anda, cara, o cachorro já sumiu de novo.
Fui encontrar o cachorrinho dois bairros depois. Tinha acabado de dar uma mijadinha no poste.
Estalei os dedos e ele levantou o olhar. Veio correndo animado em minha direção, fazendo festa. Coloquei o salgadinho no chão e, aliviado, observei o cachorrinho matar a fome. Enquanto ele comia, fui saindo de mansinho. O cãozinho poderia se apegar e eu não tenho espaço no meu apartamento.
Sabe aquela coisa de você se tornar responsável por alguém que você cativa? Resolvi não cativar para não assumir uma responsabilidade impossível.
Ou foi o cachorrinho que me cativou?
... esse cachorrinho andou lendo O Pequeno Príncipe.
Quem é que anda te pegando?
19 de Novembro de 2015, por José Antônio 0
Tudo ia bem no churrasco até que o Fonsequinha resolveu abrir a sua cartela de comprimidos. O Jonisvaldo foi o primeiro que viu:
– Remédio pra que, Fonsequinha?
O outro suspirou fundo:
– Ansiolítico. A barra está torta. Já tem um ano.
Churrasco somente de homens. Amigos antigos, desde os tempos do colégio. As esposas e os filhos não vieram. Era um momento só deles, dos amigos inseparáveis.
– Olha, gente – e aí, o Jonisvaldo abriu o olhar para todos – eu também tomo remédio pesado. Cinco anos com antidepressivo.
– É mesmo? Qual é o que você está tomando? – quis saber o Almeida.
Nem bem o Fonsequinha exibiu os seus comprimidos de remédio pesado, outros dois amigos também se confessaram usuários. E a conversa descambou para as confidências e as trocas de informações.
– Quem te receitou esse?
– É fácil de achar?
– É bom diminuir a cerveja.
– O meu, se exagerar, causa sonolência, emagrecimento e perda de memória.
– E o meu? Pode causar drogadicção. Já pensou? Ficar com problema na fala?
– Drogadicção não tem nada a ver com dicção, não é problema na fala. É dependência. Eu, por exemplo, sou drogadicto: não passo sem o meu Lorax.
Fonsequinha esperou o drogadicto acabar de falar e amargurou a sua profecia tarja preta:
– Estamos velhos.
Silêncio.
E o Fonsequinha aumentou a dose:
– Antigamente, cada um de nós trazia fotos de garotas. A gente ia vendo e falando: Já peguei... Tô pondo a mão... Vou pegar... Agora, é remédio que a gente olha e fala: Já tomei... Tô pondo debaixo da língua... Esse já me pegou... Quer saber? Eu já estou cansado de tanto PAM: diazepam... bromazepam... O seu aí, Falcão, é o quê?
O Falcão colocou os óculos e leu espremendo os olhos:
– É... espere um pouco... diazepam também.
Jonisvaldo falou soturnamente:
– É remédio pro resto da vida. É muito PAM: Pílulas Até Morrer! PAM!
Todos caíram numa gargalhada convulsiva e demorada. No fim, estavam abraçados e chorando.
– Estamos ficando mais do que velhos, estamos quase inúteis.
– Isso também não! – protestou o Almeida – A gente ainda pode muita coisa. Vejam só o exemplo do Mamute. Por que o Mamute não veio pro churrasco? Simplesmente porque está na praia com uma menininha trinta anos mais nova do que ele. Isso, sim, é vitalidade.
– Aquilo não é vitalidade.
– Ah, não? Então o que é, Fonsequinha?
– É Viagra.
A gargalhada do vilão
17 de Outubro de 2015, por José Antônio 0
Se tem uma coisa que me intriga é a gargalhada do vilão. É famosa aquela gargalhada estridente e esganiçada da bruxa. E a do Drácula? Dizem que é uma risada grave e gutural, apesar de eu nunca ter visto o vampiro parente do Batman dando gargalhadas.
Certa vez, eu estava visitando uma casa do pavor, num parque temático, e eis que do nada surge à minha frente um esqueleto. E a caveira caiu na gargalhada para me assustar. Rindo de quê? Que humor é esse?
Em filmes de mocinho e bandido, então, as gargalhadas dos vilões proliferam. Quem é que nunca viu uma cena em que o bandido aponta o revólver para o bom rapaz e fala, sadicamente:
– Você vai morrer agora! – logo a seguir, a risada maldosa: Ah! Ah! Ah!
Ou esta outra cena, em que a pobre garota está em apuros, tentando escapar do maldito criminoso e este, ato contínuo, ri prazerosamente encurralando a coitada.
Passei a olhar o riso dos vilões e percebi que eles são bem-humorados. É difícil o herói aparecer às gargalhadas. Acho que nunca vi um herói risonho. Deve ser aquela coisa da condenação do riso, que o riso deprecia enquanto a seriedade valoriza... aquelas coisas lá dos mosteiros da Idade Média.
Elucubrações à parte, há de se convir que os vilões têm muita serotonina. É até covardia: enquanto o herói entra com uma injeção de adrenalina, o vilão bebe um balde de serotonina e outro de dopamina. O resultado é aquela risaiada que a gente não sabe se é alegria ou loucura. Mas que tem prazer, isso tem. Se não tivesse, quem riria?
O Leovaldo, meu amigo contemplado pelas agruras de uma vida repleta de cismas, dúvidas e angústias, teve uma namorada assim: ria que não acabava mais. Você chegava, dava bom-dia e a Antônia disparava a rir. Ah, sim, ela se chamava Antônia. Mas todo mundo a tratava por Toninha.
Ria demais a danada. Carregava umas oito calcinhas dentro da bolsa, pois ria a ponto de lacrimejar tanto pelas setentrionais órbitas oculares quanto pelos canais uretro-meridionais. Pus um apelido nela: Serotoninha.
Toninha só não ria em velório de deputado, para os outros não pensarem que ela era a viúva. Leovaldo, afogado em cismas, chegou a duas conclusões dilacerantes: Toninha era louca e ele era palhaço. E resolveu terminar o namoro, pois de palhaço e louco todos têm um pouco... e ele tinha demais!
Agora, os vilões... Ainda não consegui ver o humor que eles encontram no medo da vítima, na maldade que eles fazem, nas destruições que promovem. Conversei com meu amigo Marcus Vinicius de Andrade Peixoto, especialista em Filosofia e existencialista por comodismo. Dedica-se agora aos estudos sobre o Nada nos intervalos da batida do Olodum. Passa o dia inteiro escutando momentos sem som para ver se encontra o Nada, numa de psicodélico zen.
Como sempre, ele fechou os olhos e respondeu naquela serenidade da moleza de Caymmi com sono:
– Há risadas do bem... Deus conta piadas aos espíritos puros. Há risadas do mal... o diabo faz cócegas nos espíritos impuros.
– E pessoas como a Toninha? – indaguei.
Marcus Vinicius de Andrade Peixoto acabou de comer lentamente o acarajé, limpou os lábios com um pedaço de pano, passou repetidas vezes a língua pelos dentes, mantendo a boca fechada, e disse em sua sabedoria vestida de abadá:
– Tem gente que é boba mesmo.