Primeira vez
13 de Novembro de 2014, por José Antônio 0
Madrugada alta de uma quinta-feira sem ninguém nas ruas. Na esquina do Beco do Galo, um cachorro dormia enquanto eu subia sozinho o Largo do Rosário.
Já nos Quatro Cantos, desci a Rua do Teatro e fui parar lá embaixo, no portão do cemitério. Em cima do muro, um gato assentado me olhava atento. Sombras confusas, ainda mais terríveis na prata do luar. Grilos cricrilavam, fazendo contraponto com a quietude dos túmulos. Ouvi o piado surdo e tímido de uma coruja. Não gostei, pois em algumas tragédias o piado da coruja é aviso de mau agouro.
De repente, uma voz grave me falou quase sussurrando:
– Perdido por aqui, bacana?
Não era piada nem piado e eu fiquei arrepiado, pois estava sendo surrupiado.
– É assalto, bacana! Vai me passando tudo aí.
– Eu não preciso ficar com as mãos pra cima?!
– É mesmo, esqueci. Mãos pra cima! É assalto! Se mexer, eu atiro.
– Atira?!
– É mesmo, esqueci. Tá aqui a arma. Não complica que eu tô nervoso. É a primeira vez que eu tô assaltando alguém.
Achei melhor não perguntar se ele não tinha se esquecido de colocar bala no revólver. Assaltante de primeira viagem costuma fazer passageiro de última viagem. Procurei ser didático:
– Olhe, amigo, eu também nunca fui assaltado. A gente pode aprender junto. Posso dar uns toques.
– Ninguém vai tocar nada, bacana! E fala baixo, entendeu?
O cara falava mexendo muito o revólver. Aquilo podia disparar. A sorte é que ele apontava mais para o cemitério do que para mim. Vi uma caveira de mãos pra cima. Era a sombra de um arbusto seco.
Enquanto o larápio debutava no crime levando o meu relógio, eu ia conversando com ele. Contou que era de Resende Costa e tinha se mudado pra São Paulo. Não deu certo lá, ficou devendo todo mundo e estava precisando de muita grana.
Antes de ir embora, ainda perguntou:
– E aí, bacana? Eu tenho futuro como ladrão?
– Posso dar umas dicas?
Na semana seguinte, fiquei sabendo que ele tinha sido preso no Rio de Janeiro, lá no Maracanã, naquele jogo do Brasil contra o Chile, em que o goleiro Rojas se cortou com um estilete fingindo que fora atingido por um rojão.
Ano esquisito aquele 1989. No primeiro dia do ano, um punhado de gente acabou morrendo no naufrágio do Bateau Mouche... o Brasil elegeu o Collor e acabou dando no que deu... no jogo contra o Chile, o Brasil acabou classificado para a Copa, o Rojas acabou banido do futebol e a moça que jogou o foguete no campo acabou pelada na Playboy... e minha inocente caminhada acabou virando vernissage de assaltante trapalhão... Tudo o que é acaba virando coisa que a gente não espera. Assim é a vida, assim é a morte. Até as dicas que dei pro ladrão acabaram virando outra coisa pra ele.
Quais foram as dicas? Elas colocariam qualquer ladrão na cadeia. Porém, se eu divulgar, também vou acabar pelado na Playboy. É melhor ficar quieto. Igual àquele gato que estava assentado no muro do cemitério.
Cupido
17 de Outubro de 2014, por José Antônio 0
No folclore varejista que simplifica a mitologia greco-romana, Cupido é o deus do amor. Costuma aparecer como um menininho inocente, pelado, com um pequeno par de asas, arco e flecha. Vive escolhendo corações – o critério é sempre dele! – para lançar flechas certeiras, fazendo com que as pessoas se apaixonem umas pelas outras.
Só que o Cupido também se apaixonou por alguém: Psiquê. No entanto, ele não aparecia aos olhos dela. Somente a sua voz falava de seu amor. A felicidade de Psiquê – estranho – estava condenada à ausência do amado.
Porém, numa noite Psiquê surpreendeu Cupido e o viu. Por causa disso, alguns revezes aconteceram. Cupido e Psiquê acabaram se casando. E não houve união mais feliz.
Quem diria que eu aprendi a ser Cupido?
Em meados de 1986, houve uma intensa e longa greve dos professores do Estado. As aulas voltaram em junho, justamente no dia do aniversário da diretora do Assis Resende, a Eunice. Na escola, aconteceria um almoço em homenagem a ela e à noite, alguns números artísticos.
Marcos, Mário Márcio e eu resolvemos ir, mas o Maguinho Tarôco estava resistente: resquícios de desentendimentos da greve. Fui, então, designado para ser o diplomata que convenceria o Maguinho a comparecer aos eventos.
Falei, argumentei, exemplifiquei, insinuei, desenhei, ponderei, nem sei! O Maguinho cedeu.
Cinco anos se passaram e, num sábado, eu estava na casa do Maguinho quando bateram à porta. Era alguém da gráfica que viera trazer os convites de casamento do meu amigo. Ele, num sorriso largo e emocionado, abriu o pacote e tirou o primeiro. Subscritou e me entregou:
– O primeiro tem que ser seu. Se não fosse você, eu não iria a Resende Costa aquele dia. E porque fui, conheci a Socorro e agora vamos nos casar.
Saí de lá batendo feliz as minhas asinhas de Cupido desajeitado, mas certeiro: mirei no que vi e acertei no que não vi.
De lá para cá, ainda continuo mirando e flechando. Algumas setas se perdem... outras se partem contra corações duros e fechados... algumas outras conseguem sangrar sem ferir. E são essas últimas musas que viram minha Psiquê.
A minha Psiquê sempre vem. Em corpos variados, em olhos de cores diversas, em peles diversificadas, em nomes dos mais sortidos, embora alguns repetidos. Mas sempre Psiquê, sempre mulher, sempre o feminino que se abre para os transbordamentos do amor.
Deixar de ser Cupido? Não. Jamais ex-Cupido, porém sempre esculpido... talhado com o capricho do formão que tira pedaço e pelo resultado que encanta.
O amor é mais ou menos por aí.
O AMOR
17 de Setembro de 2014, por José Antônio 1
Aprendi com a poesia a falar um pouco melhor sobre o amor. Mas o amor tem suas próprias noites e auroras...
O amor é eterno. Por ser eterno, ele não pode ficar. Ele dura porque não fica. Jamais se prende a histórias que são minhas ou suas. Se ele se prender, ele morre. Nós somos finitos, e o amor não. Ele é eterno porque não permanece.
Ele passa, fica um pouco... e vai. Deixa em mim, deixa em você apenas uma frágil chama, um vislumbre de que também nós podemos ser eternos... desde que não nos aprisionemos naquela maneira cruel e frustrante de tentar entendê-lo: a paixão.
O amor não começa com grandes declarações. Nem com gestos efusivos. O amor começa com pequenos gestos de doação, com silenciosas e sutis declarações.
O amor não começa no lençol compartilhado, mas no travesseiro solitário.
Ele sabe que muitas vezes a melhor presença é a ausência... que qualquer jeito não é jeito... que o momento revela o que os dias escondem...
O amor não coloca a consequência antes da causa.
O amor conhece a eloquência do silêncio.
Ah, o amor...
O amor não é aqui, ele é quando...
O amor não é agora, ele é se...
Sua alegria costuma dar medo, pois de algum modo essa alegria precisa da dor.
Sua dor costuma dar alívio, pois é típico do amor descobrir esperanças.
Começar um amor com arroubos, festas, grandes presentes, viagens inesquecíveis, gastos exorbitantes não agrada ao amor, pois ele não gosta disso em seu início. Não combina com o amor pagar mico. O amor tem classe. Ele sabe que todo arroubo é coração de bolha... um dia tudo vai se esvaziar.
O coração de quem ama não começa inchado. Ele vai se preenchendo aos poucos até ficar rico de tanto doar, sem mostrar que está doando.
O amor, quando chega, exige o melhor: nosso melhor sorriso, a melhor roupa, a melhor palavra, o melhor abraço, o melhor beijo...
O amor, quando se vai, por que não exigiria também o melhor? E exige. Nossa melhor renúncia, a melhor lágrima, a melhor paciência, a melhor volta por cima, a melhor alegria...
Pois também é típico do amor tornar melhor quem ama. É a regra do jogo do amor. Porém, ele é igual criança brincando: tem sua própria realidade e suas próprias regras. Se a gente interfere, aquela realidade acaba e tudo fica sem graça.
O amor não é ingrato. Ele é livre. Tentar aprisioná-lo é o mesmo que apertar a parte de baixo da rosa.
O amor é livre. E talvez esta seja a sua lição mais difícil: também sermos livres para vivê-lo.
Aprendi com a poesia a falar um pouco melhor sobre o amor. Mas aprendi com o amor outra coisa: perante as linhas que ele escreve, a poesia é apenas uma aprendiz.
A COPA DO PICA-PAU AMARELO
13 de Agosto de 2014, por José Antônio 0
Pôr do sol de trombeta... Assim a boneca Emília chamou o ocaso todo avermelhado. O sol tocava trombeta, convocando todos os vermelhos e ouros do mundo para comparecerem ao crepúsculo.
A nossa seleção também teve o seu pôr do sol. Só que foi pôr do sol de vuvuzela. Os vermelhos compareceram no rosto envergonhado da nação e os ouros (euros!) no bolso nos nobres atletas nobres. O pica-pau abriu a porteira do sítio do sorriso amarelo e as figuras do Lobato povoaram a seleção.
O aventureiro Pedrinho era a nossa comissão técnica. Bem no estilo do Pedrinho: enfrentar o perigo com material rústico. O Pedrinho armou o time e foi enfrentar a onça com a tática suicida de um esquema aberto. E o que aconteceu com as caçadas do Pedrinho? Onça upon a time... um time!
Sabe a Narizinho? A coitada não tem função quase nenhuma no sítio. Se o nome dela fosse Orelhinha, Coxinha ou Boquinha, não faria diferença alguma. Pois a Narizinho jogou no nosso ataque. Sem função e deslocada, quase não acertava o gol. Pudera, ela não enxergava um palmo além do seu próprio narizinho.
O Marquês de Rabicó foi escalado pra goleiro. O leitãozinho guloso só em dois jogos conseguiu engolir 10 gols!!!
A zaga se dividiu em duas Emílias. Todas as duas com a cabeleira desgrenhada, arrogantes e inconsequentes. Fizeram bobagem e falaram bobagem. Uma das Emílias declarou que queria dar alegria ao povo sofrido do Brasil. Ora, Emília, então venha jogar aqui. Alegria... o povo sofrido do Brasil vai ter alegria quando ganhar o salário que a Emília ganha pra bater bola na Europa. Gol não engorda, gol não mata a fome, gol não paga escola nem professor nem hospital. Gol enriquece e alimenta somente o goleador... desde que não seja gol contra, não é mesmo, outra Emília?
Será que o Monteiro Lobato tem algum roteiro para explicar o vexame? Quem é que vai explicar a patacoada da seleção? Os atletas do pica-pau amarelo é que não vão. Tiraram fotos com tietes fúteis, posaram para anúncios publicitários, brincaram mais que treinaram... Basta colocar uma frase imbecil no twitter e lascar fora. Banana pro Brasil!
O povo, coitado, mais uma vez com a bolinha vermelha no nariz: vota em mentiroso, assiste sempre à mesma novela, acredita em brasileiro quem já se esqueceu do Brasil e chama de celebridade quem tem somente a bunda pra mostrar. E o povo ainda pinta a cara pra ver no picadeiro do estádio a sua desgraça que faz rir. Pintar a cara e depois chorar em cima da própria pintura... Típico! Ridi, pagliaccio!...
Já estão falando em eliminatórias pra Copa da Rússia. E todo mundo já se ouriçou novamente. A ingenuidade já começou a convocar a nação. Parece que todo mundo vai acreditar outra vez.
Ingenuidade por ingenuidade... Não sei, talvez fosse melhor, para montar a nossa seleção, mobilizar mais gente da literatura e das artes, e não apenas o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Vai aí uma sugestão de onze ingênuos universais. Olha só que time: Dom Quixote, Cândido, Epaminondas, Brancaleone, Policarpo Quaresma, o Bobo da Corte, Chapeuzinho Vermelho, Pateta, Pedro Bó, o Gordo e o Magro. O técnico pode ser o Mané.
Quem sabe resolve?
Pra que é que serve?
16 de Julho de 2014, por José Antônio 0
Quem é que inventou o pente? Ou ninguém inventou? Talvez o pente seja um artefato do evolucionismo. Homens e mulheres nas cavernas, aquela cabelada toda desgrenhada que nem piaçava de duas pernas... De repente, a própria natureza gritou que era preciso fazer alguma coisa, pois os hominídeos já estavam até se embaraçando uns nos outros de tanto cabelo.
E o pente apareceu. Consequência natural e determinismo pragmático. Era o único desfecho possível. Apareceu como um dos elos da cadeia das necessidades humanas. Até hoje o pente está aí e todo mundo sabe pra que é que serve.
Outra coisa importante é a tesoura. Se o pente apareceu a fim de assentar o que não parava de crescer, a tesoura surgiu para diminuir tamanhos. E ela está aí até hoje, igualzinho ao pente: útil, firme, constante. A tesoura corta tudo, menos a sua utilidade. Todo mundo sabe pra que é que serve.
Isso é o que faz uma invenção durar: a gente saber pra que é que serve.
De vez em quando, o homem inventa umas coisas e se esquece de inventar uma utilidade para elas. Uma dessas invenções inúteis é a tinta pra pintar pelo de cachorro e pena de pintinho. Pra que é que serve um poodle azul? Onde eu vou usar um yorkshire cor de abóbora? Você encara andar pelas ruas com um pinscher verde? Deve ser duro pra uma galinha passar quase um mês chocando ovos e ver que seus pintinhos ficaram jade e grená. Isso humilha o galinheiro e o galo, que – com certeza – preferiria que os pintinhos ficassem roxos.
Tinta pra pintar bicho... pra que é que serve?
Outra coisa que não sei pra que é que serve, mas que foi inventada, é a vuvuzela. Feia, irritante e sem utilidade. Andei lendo que ficar exposto ao som dessa porcaria durante muito tempo pode causar danos irreparáveis aos ouvidos. Porém, quem inventou a vuvuzela não corre esse risco, pois a orelha é grande e acaba protegendo os tímpanos. Outro risco da vuvuzela é espalhar vírus, já que todo mundo fica soprando em cima de todo mundo.
Ridículo olhar para a torcida e ver aquela turma de marmanjos e crianças, todos com um canudão enfiado na boca e buzinando numa nota só. Qual a utilidade da vuvuzela no jogo? Nenhuma. Qual a alegria que a vuvuzela traz pra quem está sentado ao lado do soprador? Nenhuma.
E o povo insiste em exercitar a embocadura no cornetão burro.
O negócio tem requinte: já inventaram a vuvuzela tipo buzina a ar comprimido. Você não precisa soprar, é só apertar um tipo de êmbolo que a injeção de ar acontece. O resultado é aquele barulhão inútil.
Vuvuzela... pra que é que serve?
Se o pente e a tesoura vieram de um tipo de evolucionismo pragmático, a tinta pra pintar bichinhos veio de um revolucionismo antipático. Quanto à vuvuzela, essa veio mesmo é de um regressionismo dramático.