Procura-se entender o que pode haver de errado com o domingo, dia da semana normalmente dedicado ao descanso, ao lazer e, por extensão, ao bem-estar, tudo isso proporcionado pela pausa teoricamente relaxante nas atividades estressantes dos outros dias. Acontece, porém, que o “dia do Senhor”, também consagrado à oração entre os povos cristãos, é vivido por muitos com uma certa tristeza. Sim, é uma sensação de angústia e desânimo que dizem sentir os acometidos pela “Síndrome do Domingo à noite” ou “Síndrome do Fantástico”, denominações essas evidentemente informais. Conheço gente que não suporta nem ouvir a música-tema do programa global que vai ao ar nas noites de domingo há 52 anos por associá-la ao final do fim de semana e à chegada de mais uma talvez indesejada segunda-feira.
Os também chamados “Sunday scaries”, (sustos do domingo), termo popular usado principalmente nas redes sociais, podem ser explicados, segundo estudiosos do comportamento humano, pela ansiedade antecipatória em vista da preocupação com o trabalho e/ou estudo e outras demandas, quase sempre a exigir desafios e/ou a causar aborrecimentos durante a semana futura e próxima; ou é o vazio afetivo que surge por estar a pessoa sozinha em casa, sentindo-se isolada, ou mesmo na companhia de outros e, de qualquer forma, não ser capaz de ocupar seu tempo ocioso com alguma atividade prazerosa. Acrescente-se a esses fatores, entre outros, a insatisfação com a rotina diária.
Acordar cedo, enfrentar um trânsito pesado ou um transporte público lotado, chegar ao trabalho e enfrentar pressão e estresse constantes e, ao final do dia, pra não dizer, muitas vezes já à noite, voltar para casa. E, de novo, começar a se preparar para a peleja dos outros dias úteis. Essa é a rotina de milhões de trabalhadores e trabalhadoras habitantes de cidades maiores, aqui considerando, somente como ilustração, grande parte do cenário brasileiro.
Há diferentes cotidianos, é óbvio. Das crianças e jovens em casa e na escola, das cidadãs e dos cidadãos aposentados e seus novos hábitos, dos que vivem na zona rural. Ou de quem mora em cidades pequenas, sem o ritmo frenético dos grandes centros, o que me faz lembrar Drummond (sempre ele) em Cidadezinha qualquer:
“Casas entre bananeiras/mulheres entre laranjeiras/pomar amor cantar./ Um homem vai devagar./ Um cachorro vai devagar./ Um burro vai devagar./ Devagar... as janelas olham./Eta vida besta, meu Deus.” (Alguma poesia)
Cotidiano também é o nome de uma música que Chico Buarque lançou em 1971.
“Todo dia ela faz tudo sempre igual/ Me sacode às seis horas da manhã/ Me sorri um sorriso pontual / E me beija com a boca de hortelã...”
A letra retrata a vida de repetição e sufocamento que afeta a todos e que ganha ainda uma outra leitura no contexto da ditadura então vigente. E expõe a situação da mulher, que, na época, geralmente ficava em casa enquanto o homem saía para trabalhar.
Essa mesma situação é mostrada em Rotina, canção amorosa de Roberto e Erasmo Carlos lançada em 1973 com o relato da rotina de um homem apaixonado em mais um dia de trabalho, deixando em casa a mulher e só voltando à noite para reencontrá-la. “O sol ainda não chegou/ e o relógio há pouco despertou...”
Antes ainda restrita ao ambiente doméstico e vivendo, pois, “apenas” a rotina de dona de casa, como se isso fosse pouca coisa, o que é, na verdade, extenuante, com o tempo, a mulher passou a incorporar uma outra rotina à sua jornada ao sair de casa e se inserir no mercado formal de trabalho. Cotidianamente.
Nesse corre todo, escrevemos todos os dias uma página diferente na nossa história. Podemos até não perceber a singularidade sutil da volta de 24 horas que vemos passar continuamente e que parece, só parece tornar igual cada dia, que é único, de fato.
E cá entre nós: experimentar o extraordinário de vez em quando é muito bom e necessário, mas é no ordinário da vida que encontramos o nosso ponto de equilíbrio, o viver de cada dia com propósito e sabedoria.