Pulcinella (Polichinelo, em português) é um personagem tradicional da commedia dell’arte, que foi uma manifestação teatral de improvisação surgida na Itália no século XVI. Caracterizado pela máscara preta com nariz longo, roupas brancas e personalidade fanfarrona e, muitas vezes, trapalhona, ele não conseguia guardar segredos, contando-os em voz alta à plateia, tornando-os, pois, públicos. Surgiu daí a expressão “segredo de Polichinelo”, usada para nomear uma informação que, apesar de ser classificada como sigilosa, é do conhecimento de todos. Trata-se de um falso segredo ou um segredo aberto, quando algo já se tornou público, mas continua sendo tratado como confidencial.
Também personagem e por alguns anos presente no humorístico A praça é nossa (SBT), Vamércia é a fofoqueira do pedaço, interpretada pela atriz/comediante Maria Teresa (1936-1999) e lembrada sobretudo por seu irônico bordão e muitos tropeções na gramática: “Minha boca é um túmbalo”, garantia ela.
A metáfora da boca entendida como um túmulo sugere silêncio, fechamento. O mesmo acontece quando se fala em “segredo guardado a sete chaves”. Ao que se sabe, essa expressão tem origem na Idade Média, quando documentos importantes, tesouros e demais objetos de valor eram guardados em total segurança em arcas ou cofres com muitas fechaduras que exigiam a presença de várias pessoas (cada uma com uma chave) para serem abertas. Com o tempo, o número 7, considerado sagrado e símbolo de perfeição e proteção em muitas culturas, ganhou o lugar do 4, geralmente, o número real de chaves para cada fechadura daquelas caixas antigas. Cotidianamente, o sentido do que está guardado a sete chaves, de documentação sigilosa a histórias pessoais, remete à ideia do que está escondido, trancado por barreiras.
Fala-se muito também em segredo de estado, instrumento controverso usado por governos, por poder criar conflito entre o que se julga ser necessário manter em segredo e o que constitui falta de transparência. E há o segredo de justiça, mecanismo legal determinado pelo Judiciário para a tramitação de determinados processos.
Por outro lado, vive-se hoje uma realidade em que discrição e privacidade são artigos raros. Em tempos de superexposição e compartilhamento potencializados pelas redes sociais, tudo ao alcance de plateias estratosféricas, impressiona ver tanta intimidade escancarada por aí. Trancar-se, no entanto, não repartir nada com ninguém não é a saída. “Ao guardar um segredo que a atormenta, a pessoa acaba ruminando aquele pensamento e às vezes amplifica perigosamente o incômodo”, observa o psicólogo Vicente Cassepp-Borges, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ainda a favor da quebra do que é guardado como algo perturbador há a compreensão para o que certas revelações têm de necessárias. Talvez seja o caso do servidor público Saulo Láuar, que, ao reviver o trauma por uma tentativa de abuso sexual, aos 14 anos, praticada pelo parente Magid Láuar (desembargador, hoje encrencado com questões parecidas), decidiu não se omitir, quebrando o silêncio agora.
Como sempre, em nome do bom senso, deve valer o equilíbrio entre o que contar a todos e o que guardar para si. E eis que estudos recentes ligados ao tema demonstram que guardar sentimentos, conquistas e novidades para si mesmo(a) tende a produzir um imenso bem, sobretudo quando são segredos positivos. Para muitos, difícil, por exemplo, é segurar a ansiedade guardando segredo ante a expectativa de uma promoção no trabalho ou da realização de uma viagem dos sonhos. Vai que nada disso acontece e, se acontece, não tem que ser, necessariamente, do conhecimento geral.
Há segredos e segredos. Segundo a avaliação preciosa do escritor, filósofo e missionário português Antônio Vieira (1608-1697), “o segredo encomendado à memória corre perigo, o segredo encomendado ao esquecimento está seguro”. Bem antes do Padre Vieira, Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), filósofo dos tempos romanos, já aconselhava: “Se queres teus segredos guardados, guarda-os tu mesmo”. Vindas de quem vieram, assim como certos segredos, essas palavras têm peso. A refletir.