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Muito mais do que uma peça de roupa

25 de Novembro de 2025, por Regina Coelho

As camisetas com legendas, acompanhadas ou não de outras linguagens, a exemplo de fotos, cores e desenhos, entre outros artifícios, vêm sendo usadas há tempos em momentos diversos como ferramentas de expressão do pensamento e do sentimento, indo muito além do seu uso principal como peças do vestuário de grande parte da população mundial. Historicamente, elas começaram a ostentar mensagens a partir de meados do século XX, quando a tecnologia propiciou o avanço da serigrafia, técnica de impressão que permite a transferência de tinta de uma tela distendida sobre variadas superfícies, assim criando configurações, imagens.

E ocasião é o que não falta para que essas camisetas deem as caras por aí, ou melhor, que estampem caras, bocas, situações e textos levados e exibidos por muitos no peito e nas costas em homenagem a alguém ou a algum fato, em propaganda de todo tipo, em defesa de uma causa. Ou a razão é o gosto em vestir uma peça considerada bonita, ou a necessidade de simplesmente ter como se cobrir.

Feita na maioria das vezes de algodão, um tecido leve, simples e confortável, produzida em larga escala, dessa forma, com fabricação de baixo custo, e inicialmente considerada uma roupa íntima, a camiseta ganhou o mundo. Por óbvio, devido a outros motivos, o mesmo aconteceu com o inglês, que se tornou uma língua global.

Segundo a Enciclopédia das Línguas no Brasil (ELB), da Unicamp, o inglês é dominante hoje como idioma universal em decorrência do tamanho do poder de colonização dos britânicos (que teve seu pico mais alto no fim do século XIX) e, sobretudo, da hegemonia econômica dos Estados Unidos, alcançada principalmente a partir do fim da Segunda Guerra Mundial (1945). Por ser meio de comunicação entre pessoas que não o têm como língua oficial, com línguas maternas diferentes entre si, é conhecido também como uma língua franca. Não à toa, portanto, é empregado predominantemente nas relações e negociações internacionais e na produção de conhecimento científico, cultural e tecnológico. Onipresente língua inglesa, até nas camisetas e itens afins legendados e produzidos por este mundo afora tão globalizado.

A esse respeito, uma questão se levanta: a grande quantidade de textos transcritos nesses produtos na língua de Shakespeare, com tradução desconhecida por parte de muitos que os ostentam. Ou são as próprias legendas que podem apresentar erros de digitação, traduções literais indevidas ou gírias de duplo sentido. Isso pode levar quem usa tais artigos a passar por situações embaraçosas ou ofensivas. A pessoa não sabendo ou não entendendo de forma contextualizada o significado da frase que carrega consigo na roupa ou em algum acessório corre o risco de exibir, sem querer, uma mensagem que a exponha ao ridículo, que a associe a algo negativo ou que ofenda outras pessoas.

Há dois anos, a rede de lojas Marisa colocou à venda no e-commerce da marca uma camiseta juvenil com a seguinte legenda: “Great rapers tonight”. Nela, o termo correto no contexto “rappers” (cantores de rap) foi transformado em “rapers” (estupradores), gerando grande polêmica na época. Outro caso notório marcou literalmente uma camiseta infantil com esta afirmação: “I don't need life. I'm high on drugs” (Eu não preciso da vida. Estou drogado.), o que é um despropósito, uma linguagem de cunho nocivo até mesmo se fosse direcionada a maiores.

   Usar essa peça tão democrática com propriedade, sensatez, levando conscientemente cravados, em seus fios, singelos recados pessoais ou potentes discursos coletivos, não é moda passageira. Na década de 1970, as camisetas se tornaram aliadas da publicidade. E já tinham antes caído na preferência dos mais jovens. Ativistas passaram a se apropriar delas como bandeira de suas ideias. E as camisetas de bandas de rock viraram reforço na paixão dos fãs mais aficionados desde sempre.

   Unissex e atemporal, a t-shirt, em bom português, a camiseta, com ou sem legenda e transcendendo seu uso como roupa e a moda, é extensão da nossa identidade pessoal.

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