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O casamento do mineiro

29 de Outubro de 2025, por Regina Coelho

manhã de sábado. E a mineirada na rua para ir ao casamento de um primo. Todos nascidos em Resende Costa, morando em São Paulo. A Melica, agitada e sem querer atraso, pois o Niquinho ia se casar, apressava as cunhadas, Caíca e Maria. Foram de trem, o que as deixaria mais próximas da casa da Ciloca (irmã do noivo), onde parariam primeiramente. Tomavam cuidado para não perderem as crianças na estação (a antiga Sorocabana), conversando muito durante o trajeto.

__Mãe, o que vamos almoçar? Estou com fome!

__Calma, César, a gente vai passar antes em uma granja para comprar dois frangos, respondeu a Melica.

E Maria, que tinha nojo de tudo, avisou logo que só comeria o frango se fosse feito pela Caíca.

Frangos comprados, um bem gordo e um grandão, mortos ali na hora e levados com pena e tudo. E lá foram elas carregando na sacola o que fazer no almoço.

Chegando na casa da Ciloca, viram que não tinha água nas torneiras, então usaram água da bica para ferver e com ela depenar e lavar os frangos. Com eles já limpos, Caíca preparou um suculento molho de tomate para o macarrão e pôs tudo numa bacia que estava por lá. Almoço servido e elogiado pelas crianças. Foi aí que, olhando pela janela, a Melica viu a noiva, que morava por perto, já pronta e saindo de casa. Vendo-se atrasada, resolveu pôr o vestido escolhido para a ocasião por cima da saia que usava, enquanto a dona da casa procurava a bacia de dar banho nas crianças. Mas cadê ela? Tava com a macarronada. Silêncio constrangedor. A filharada da casa com roupa de festa e sem banho. Já sem os bobes, a Maria ajeitava o penteado. Arrumados, todos saíram em direção à rua.

Ao entrar na Kombi que levaria a turma para a igreja, a Maria bateu a cabeça na porta do carro. Com o sangue lhe saindo pelo nariz, contrariada, aceitou que a Melica pusesse sobre sua cabeça uma toalha molhada que desfez o penteado da coitada. Na igreja, o nariz não sangrava mais.

E foi somente lá que a Ciloca, pouco antes de ir para o altar assumir a posição de madrinha, percebeu que estava de tênis.

__Ah! Minha filha... Não olha pros pés. Fica quieta e exibe seu vestido de veludo. Ninguém vai reparar nos seus pés, aconselhou a Melica.

Logo depois, ela própria se viu em apuros ao sentir caindo, enquanto também andava até o altar, a saia que usava sob o vestido. Depressa, pisou nela, pegou a danada e entregou a “mardita” para alguém segurar.

Todos no altar. Entrou a noiva e fez-se o casório.

Na saída da igreja, as crianças se juntaram a um grupo e foram jogar arroz nos noivos, com vivas a eles. Nessa hora, foi possível ouvir cacarejos que vinham do terreno que ficava ao lado da igreja. Doidas para comerem o arroz que era jogado nos recém-casados, as galinhas da vizinhança fizeram a sua própria festa. Virou diversão para a criançada ajudar a espantá-las, e seguiram depois todos pra festa na casa dos pais da noiva.

E lá, o perrengue da vez foi causado por um suco feito de ameixa colhida diretamente do pé, no quintal do vizinho; e tomado por muitos talvez em excesso, o que provocou uma dor de barriga neles, pois, como lembrou Caíca, ameixa solta o intestino.

Tarde da noite a mineirada pegou o trem de volta para casa. Quase madrugada para Caíca, Melica e as crianças irem embora, por isso todo mundo foi dormir na casa da Maria. Ainda agitados, foram conversar no quarto. Sentaram-se todos na cama da Maria para relembrar tudo o que aconteceu naquele longo dia. Aí a madeira que segurava o estrado da cama não aguentou o peso e quebrou com eles em cima. Aí é que riram mesmo. Dormiram todos na sala, só indo embora pra suas casas no dia seguinte, depois de baterem uns pregos para consertar o estrado da cama.

 

P.S.: Adaptação do texto original e homônimo de Simone de Andrade David Lira sobre uma história contada a ela pela mãe, Caíca, “uma resende-costense muito especial” e, como se viu, também personagem da narrativa acima.

Conheci Simone em São Paulo (capital). Ela, ainda adolescente. Mantivemos contato através de cartas por algum tempo. Passados tantos anos, resgatamos o contato. Recentemente, tive o prazer da sua visita em Resende Costa, juntamente com seu marido (o Lira) e a Caíca. Nós duas cultivamos o gosto pela escrita de nossas muitas histórias.

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