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Pelo simples direito de viver em paz

27 de Maio de 2026, por Regina Coelho

Orientado pelo conceito Todos por todas, o Plano Nacional Brasil Contra o Feminicídio, lançado em fevereiro deste ano, é uma iniciativa inédita dos Três Poderes da República em torno de ações integradas e permanentes de prevenção, proteção de vítimas e responsabilização de agressores nos casos de violência letal contra mulheres e meninas. A partir daí, plataformas digitais e redes sociais, sites oficiais do Governo, meios de comunicação de massa (tevê, rádio, mídia impressa) e locais públicos e institucionais passaram a veicular mais informações e empreender campanhas educativas com enfoque no engajamento da sociedade e, por extensão, no chamamento aos homens no combate a esse crime que é o assassinato de uma mulher, cometido por razão de condição de sexo da pessoa.

A parte de Comunicação oficial do Plano inclui um filme que ressignifica a canção Maria da Vila Matilde (referência à Lei Maria da Penha), de Douglas Germano, consagrada na voz de Elza Soares (1930-2022). Na versão de agora, para a campanha, partes da letra são apresentadas por falas masculinas, uma estratégia comunicacional para deslocar e estender para o homem não agressor a responsabilidade pelo enfrentamento à violência masculina.

O chamado pela união de todos provocou a adesão de entidades públicas e empresas privadas por meio de campanhas paralelas sustentadas por esse mote. O que pode ser visto, por exemplo, em Nosso Papel, ação promovida pela Globo, com o apoio de importantes instituições de referência na defesa dos direitos das mulheres. Partindo de uma provocação direta, o vídeo reúne os atores Dan Stulbach, Enrique Diaz e Ronnie Marruda com a leitura de frases marcantes reproduzindo comportamentos machistas, misóginos e violentos de personagens que interpretaram em novelas.

Stulbach revive Marcos, de Mulheres Apaixonadas (2003), ao dizer: “Você não assume o papel de uma mulher casada. Se você não tá me entendendo, eu vou fazer você entender”. Diaz retoma Gérson, de Volta por cima (2024/2025), com a seguinte fala: “A culpa pelas minhas atitudes é sua! Você é que me leva a fazer essas coisas”. E Ronnie, trazendo de volta o personagem Cigano, de Senhora do destino (2004/2005), ameaça: “Experimenta não fazer o que eu tô mandando. Experimenta!” O final vem com Dan Stulbach, sem o personagem abusivo de antes, para declarar que “enfrentar a violência contra a mulher é nosso papel”, reforçando o convite para que os homens sejam aliados das mulheres contra essa realidade.

E que realidade! Em 2025, segundo Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (organização não governamental, apartidária e sem fins lucrativos), foram registrados 1.568 casos de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior, com a ocorrência maior desse crime (66,3%) se dando dentro da própria residência das vítimas. Esses e tantos outros números alarmantes evidenciam a persistência e o crescimento da violência letal de gênero no Brasil, ano a ano, numa escalada de ações violentas que simplesmente matam mulheres.

Sem negar os avanços obtidos nas lutas contra esse mal, fato mesmo é que somos um país com uma estrutura social que ainda naturaliza a desigualdade de gênero, a violência doméstica e o controle masculino em forma de posse sobre as vidas e os corpos femininos. E pasmem! Como se já não bastasse tudo isso, há uma outra luta em curso, desta vez, tendo como mira da Polícia e da Justiça grupos que propagam criminosamente conteúdos (vídeos, imagens) que, sob uma roupagem de humor, incentivam o uso da violência contra a mulher em plataformas digitais. E que aparecem acompanhados da legenda “Quando ela diz não...” (ou “When she says no...”), uma sugestão explícita de agressão por parte de homens a uma negativa de relacionamento ou assédio (Não é não!), vinda de mulheres.

Em evento recente no Tribunal Superior Eleitoral, ao proferir a palestra Liberdade da mulher de ir e vir – um direito ainda em construção, a ministra Cármen Lúcia foi categórica ao afirmar: “Resolveram nos matar. Resolvemos viver. Temos uma equação para pacificar essa relação”. Disse tudo!

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