A tradição de dar presentes remonta a tempos imemoriais. No Egito Antigo, por exemplo, era costume os faraós e deuses serem presenteados com ofertas e honrarias. Os presentes eram considerados uma forma de o presenteador assegurar boa vontade e proteção por parte do presenteado. Nessa e em outras culturas ancestrais, eram dados também para celebrar vitórias, honrar líderes e fortalecer alianças.
Na cultura cristã, essa prática ganha relevo maior ao ser representada pelo nascimento de Jesus e a consequente chegada até Ele dos Magos do Oriente. A propósito, a história deles é narrada na Bíblia, no Evangelho de São Mateus (2, 1-12). A narrativa bíblica não fornece muitos detalhes sobre os Magos. Seus nomes sequer são mencionados, mas há nela o registro de serem “vindos do Oriente”. E de que uma estrela brilhante os conduziu até o lugar onde estava o Menino, com Maria, Sua Mãe, e ofereceram a Ele presentes: ouro, incenso e mirra. Ressalte-se que o sentido de “magos” para a época (como foram descritos) não tinha relação com bruxaria ou feitiçaria e sim com o fato de serem eles sábios ou sacerdotes.
Progressivamente, o ato de presentear foi se tornando universal e mais acessível, saindo dos círculos exclusivos da nobreza, das castas e dos rituais religiosos para o cotidiano das pessoas. Veio com a modernidade a comercialização em massa desse gesto de presentear alguém, incluído nas celebrações de marcos de vida e nas relações pessoais e profissionais. E nas tradicionais datas comemorativas estrategicamente exploradas pelo mercado de consumo: Dia das Mães, das Crianças, dos Pais, dos Namorados... e o Natal.
Em se tratando dessa que é uma das principais comemorações do cristianismo, juntamente com a Páscoa, o apelo geral à compra de presentes vem de todos os lados, atingindo o coração e principalmente o bolso de tanta gente, de milhões e milhões de consumidores. E eis que chega Papai Noel, que virou praticamente sinônimo de presente. E, é claro, não pode ficar fora dessa onda toda envolvendo o imaginário natalino. Desembarcando do seu trenó e carregando um pesado saco abarrotado de presentes, vem descendo pela chaminé das casas e deixando dentro delas, na calada da noite, o que lhe foi pedido por inocentes orações ou singelas cartinhas infantis, pelo menos nesta época do ano concorrendo com as mensagens digitais. Os sapatinhos deixados na janela do quintal indicam uma outra rota a ser observada pelo Bom Velhinho no cumprimento de seu ofício.
Impossível não lembrar Manuel Bandeira (1886-1968) para citar o seu poema Versos de Natal: dentro do “homem triste”, de “cabelos brancos” e “olhos míopes e cansados”, vive “o menino que todos os anos na véspera do Natal/ pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta”.
Vivendo agora todos nós os dias presentes que antecedem o 25 de dezembro, convém lembrar também que já é tempo de marcar presença nas confraternizações de final do ano entre familiares, amigos e colegas com... presentes. Para isso há sempre alguém sugerindo o amigo-oculto ou amigo-secreto, brincadeira essa que divide opiniões. Enquanto uns e umas amam viver esse momento, outros e outras, talvez magoados por algumas falas atravessadas ouvidas de um inimigo-oculto (só pode ser) e não mais oculto, na revelação de seu nome em edições passadas, abominam essa hora. Tem ainda a turma que diz não ter sorte nisso por ganhar sempre “presente de grego” (expressão que remete à Guerra de Troia, quando os troianos foram “presenteados” com um cavalo gigante de madeira, deixado na entrada de Troia e que escondia soldados gregos, na verdade, uma cilada do inimigo que destruiu a cidade). Daí o uso atual desse termo para o que é ganhado e parece bom, só parece, frustrando a expectativa de quem espera algo útil ou melhor.
Sorteios de amigo-oculto e profusão de presentes dados e recebidos à parte, o melhor presente é mesmo a vida – construída e compartilhada com os nossos semelhantes.
Desejo aos leitores do Jornal das Lajes um Natal de paz e um 2026 de muitas alegrias.