Eu e meu gosto pela caça às palavras, ou melhor, pelas inúmeras formas como elas se apresentam nos textos literários, nas modalidades informativas e nas mais despretensiosas manifestações linguísticas que observo no dia a dia. Ao falar em caça, não me refiro ao jogo de procurar, encontrar e circundar palavras embaralhadas que, escondidas entre tantas, relacionam-se a um tema comum. Diferentemente do que é caçado nesse passatempo, andei juntando um pouco do nosso extenso, e nada escondido, vocabulário ligado ao reino animal e adaptado às nossas muitas situações corriqueiras de fala.
É fato que as analogias envolvendo os animais são usadas comumente para caracterizar pessoas, descrevendo traços de personalidade e comportamento delas. Nesse sentido, nominar carinhosamente um humano como uma formiguinha é o mesmo que considerá-lo organizado, trabalhador e dedicado às suas funções. Referir-se a alguém como uma raposa equivale a dizer que a pessoa é astuta, esperta. Lembro aqui Ruy Barbosa (1849-1923), grande jurista e político brasileiro que ganhou o cognome de “Águia de Haia” por sua memorável participação na II Conferência da Paz em Haia (Holanda), quando (1907) fez notável defesa do princípio da igualdade entre os Estados. Ruy foi reconhecido como um homem com visão de águia, estrategista, com habilidade de ver além do óbvio e com foco no futuro.
De tão manjadas me vêm à memória, normal, acho, mas que poderia ser de elefante (excelente) ou de galo (curta), três metáforas pra lá de utilizadas em momentos de grande irritação de quem simplesmente ficou ou virou uma fera, ou uma onça ou ainda uma arara. E há muitas outras maneiras de rotular o indivíduo associando-o a algum animalzinho ou animalzão. À lesma (pessoa mole, preguiçosa, sem préstimo), ao carrapato (pessoa pegajosa), ao rato (ladrão), à traíra (pessoa traidora) e à girafa (pessoa muita alta)...
Interessante é que chamar alguém tido como bonito(a), atraente de gato(a), gatinho(a) ou gatíssimo(a) é elogio. Chamar de cachorro(a), nem tanto. E cachorrada, em sentido figurado, é canalhice. Ser cobra em alguma atividade é ser ótimo de serviço. Ser cobra criada, com significação positiva, é ser sagaz, experiente e não deixar se enganar facilmente, mas se associa também a quem é ardiloso e inescrupuloso. E ainda, “se aquilo ali é uma cobra (ou uma cobrinha)”, afirmativa e conotativamente falando, muito cuidado com o bote.
Classifica-se um sujeito não muito chegado aos bons hábitos de higiene como um porco. Coitado do porco animal, só lembrado atolado na lama do chiqueiro. Uma injustiça com os suínos, cuja carne (que me desculpem os vegetarianos) é uma delícia. Sobram também xingamentos àquela criatura a quem muitos julgam ser desprovida de inteligência: anta!, burro(a)!, que ideia de jerico!, que burrice!
Contrariando o senso comum, que costuma relacionar a anta à ausência de entendimento, estudos mostram que ela tem uma grande concentração de neurônios. Sobre o burro, é importante considerar que a percepção negativa que se faz dele também é injusta – um animal forte, resistente e com imensa capacidade de trabalho. É bom ressaltar, no entanto, que a inteligência animal é um conceito complexo, multifacetado. Nesses e em outros casos, a relação com a falta de inteligência (e outras características) é uma construção cultural e não reflete a realidade dos animais, o que pode ser exemplificado pelas fábulas e histórias infantis tradicionais (assunto para um provável futuro artigo).
Não escapa nesse contexto todo a conotação para perua: mulher que se veste, se maquia e se comporta de modo chamativo usando roupas e acessórios espalhafatosos. Curiosamente, porém, é o peru a figura esteticamente mais, digamos, vistosa do casal de aves.
Por fim, inescapável da mesma forma continuar lembrando os que têm olhos de lince (de visão apurada), os que vertem lágrimas de crocodilo (falsas), andam a passos de tartaruga (devagar), dão abraço de tamanduá (abraço dado com más intenções), abraço de urso (abraço afetuoso)... numa bonita simbiose, pelo menos semanticamente falando, entre animais e humanos.