De todos os fenômenos circundantes a este momento do cinema brasileiro, com as indicações consecutivas ao Oscar de “Ainda estou aqui” (Walter Salles) e, a mais recente, de “O agente secreto” (Kléber Mendonça Filho), o que mais me intriga são as estratégias ideológicas dos veículos de comunicação em massa para demarcarem a dobradinha como o momento de glória maior da produção fílmica nacional.
É evidente que ambos os filmes se tornaram capital simbólico do posicionamento político de resistência frente aos detratores da cultura brasileira e aos ataques constantes à soberania nacional, oriundos da extrema-direita, aqui e acolá. Então é justa e necessária a reafirmação constante dessas produções, enquanto produtos culturais, quando laureadas no cenário internacional.
Quanto aos méritos artísticos e políticos das duas produções, não há contestação. À autoestima injetada no povo brasileiro com seu próprio cinema: melhor ainda. É um ótimo sentimento ter um filme que sai do nosso território, adentra a mais tradicional premiação da indústria cultural, na casa dos caras, diante da mais impositiva indústria cinematográfica – ou bélica? – do mundo e conquista um prêmio. Contudo, o que representa uma campanha ao Oscar?
Campanhas ao Oscar ou premiações similares do alto grau da indústria cultural são, em alguma medida, mérito artístico, mas o transcende em muito. É possível dizer que “Cidade de Deus” (Fernando Meirelles e Kátia Lund) possui mérito artístico menor às duas peças citadas, ao não ter alcançado uma estatueta? Eu diria que não. O transcendente em questão é o financiamento extensivo para as campanhas – marketing puro –, e a escola Globo de formação de celebridades e personalidades que, de fato, é uma das melhores do mundo. Dificilmente você veria os não-atores, ou atores formados em set, de “Cidade de Deus”, com todo o investimento destes dois filmes para ir a talk shows, dar entrevistas e cruzar os EUA em campanha. Reafirmo: a felicidade à indicação e à vitória dos filmes não são ilegítimas, muito pelo contrário. Mas a aquisição da narrativa de Oscar como “glória maior” nem de longe é benéfica à realidade do nosso cinema.
A indústria cinematográfica brasileira tem, no sumo de sua história, solavancos e desmontes contínuos, fases péssimas e fases de alguma melhora. A precariedade de nossa indústria, porém, se desenvolveu em linguagem: uma saída genial constatada no manifesto “Eztetyka da fome”, texto de Glauber Rocha publicado em 1965. Logo, se o crivo de sucesso de um cinema é a presença em grandes premiações norte-americanas, ou um pareamento estético à Hollywood, estamos, definitivamente, fadados ao fracasso. É a condenação de nossas subjetividades. E é diante das inúmeras reportagens da mídia tradicional e postagens em redes sociais, que instituem esse momento como o de maior vitória simbólica, com raras menções à amplitude histórica do nosso cinema, que meu medo avança. Pois a recepção acrítica, aos desavisados ou nem tão ligados em cinema assim, a esta construção ideológica de que o cinema nacional “está na moda”, obscurece o fato de que o cinema brasileiro sofre de sucateamentos estruturais graves e que, mesmo assim, esteve à frente nas maiores revoluções de linguagem da história do cinema mundial, desde “Limite” (Mário Peixoto), no auge das vanguardas, aos cinemanovistas, na consolidação do cinema moderno, e à Retomada, no final dos anos 1990.
Há décadas somos inegáveis no cenário internacional. Soa quase como um milagre, mas é militância árdua e trabalho contínuo, muitas vezes guerrilha, para que essa realidade e as contradições sejam expostas à opinião pública. O espetáculo em torno de uma premiação deve alegrar, é claro, mas não pode servir de risco ideológico ao esforço homérico e às penosas conquistas que nossos cineastas obtiveram ao longo dos anos. E, para isso, são necessários cumplicidade e olhar crítico. Não há outra saída.
É importante ressaltar que a mídia tradicional de massa que exalta e cava um poço em torno deste momento é a mesma que promoveu aversão cultural ao cinema nacional (a velha ladainha de “só tem sacanagem e palavrão”) para o estabelecimento da novela como principal produto audiovisual do país. Ou seria só de uma má sorte terrível termos novelas incríveis e filmes tão “asquerosos”? É necessário estar atento aos discursos da indústria cultural e construir um horizonte mais amplo.
Advogo essa reflexão, no ajeitar das melancias, pois observo empolgação e ânimo em muitas pessoas que compram esta narrativa nociva desavisadamente e, creio, e muito, que ao descobrirem nosso cinema, em sua multiplicidade de linguagens e impressionantes conquistas artísticas através de sua história, terão finalmente o encanto que todos os aficionados defendem. Torço para que as conquistas de “Ainda estou aqui” e “O agente secreto” abarquem mais uma – crítica a nós: ser ponto de partida ao desbravamento deste universo em si que é o cinema brasileiro.

Richard Sanchez Firmino da Rocha - 28/03/2026
Quem é fan do jornal das lajes é calango?