Três circunstâncias essenciais me estimularam este tema. A primeira, a demolição de uma casa próxima à Matriz, que me provocou espanto, sob a dúvida de ser patrimônio tombado – ignorância minha. A segunda, a exposição de fotografias antigas da cidade, inaugurada na Biblioteca Municipal ao dia 22 de abril. Por fim, a aprovação na Câmara da instauração do Circuito Turístico Cultural do Centro Histórico – creio, uma das mais potentes iniciativas institucionais em relação à cultura, nos últimos tempos.
Ao me confrontar com os registros da cidade, grande parte datada da primeira metade do século XX, a descaracterização da paisagem urbana me chamou muito a atenção – e isso se tornou discussão constante em diferentes círculos. Entre teimosas tentativas de reconhecimento dos espaços urbanos expostos, duas cronologias se elevaram à minha percepção: dos registros às minhas memórias de infância ao início dos anos 2000; dessas memórias ao período atual. É evidente que nem tudo é patrimônio, logo a paisagem se modificaria, inevitavelmente. A mudança da paisagem urbana é uma condição do desenvolvimento urbanístico, nisso não há oposição. A descaracterização, porém, traz problemas, ainda mais se tratando de uma cidade que se vende pelo turismo histórico-cultural – outra conceituação em xeque.
Os fundamentos para as novas zonas de interesse da cidade ecoam o arranjo sintomático da orientação ideológica predatória que foi elucidada em meu último texto. Isso se demonstra facilmente na manifestação da estratégia, de ordem geográfica, do “livre mercado” resende-costense, em que se estende uma estrutura monotentacular de estabelecimentos pela via de entrada a tomar de assalto o visitante em seu prematuro contato com a civilização, após o trevo. Sob o desejo de um cenário sustentável – praticamente impossível de se conjecturar sob a lógica do capital – isso é péssimo: desloca-se a principal atividade econômica a um só ponto da cidade, que tenderá sempre a se afastar indefinidamente e enfraquecer o fluxo humano acima. Junte essa configuração à nossa fraca vocação em difundir nosso patrimônio: ao visitante, resta absorver consumo fantasiado de cultura e sequer subir o morro; ao conterrâneo, substituir o imaginário por fetiche financeiro. A mim, uma cidade que tem por pilar econômico um produto cultural o atirar, intencionalmente, como um dardo, para longe do centro material de sua história e cultura é um símbolo – vívido demais – de tragédia anunciada.
Resistente a isso, urge a potência da instauração do Circuito do Centro Histórico, que, com todas suas contradições preexistentes, se faz necessário para a saúde do município, tanto à economia quanto à cultura. Sobre contradições, indago: o que, de patrimônio histórico-cultural preservado, haveria para um circuito? Essa questão não serve a princípios retóricos, ela realmente é uma dúvida crucial, constatado nosso gradual esquecimento do patrimônio. Posso ser eu e minha ignorância, mais uma vez, mas sinto dificuldades ao enumerar. Existem algumas peças escultóricas inestimáveis do mestre santeiro de Lagoa Dourada, datadas do século XVIII, trancafiadas no sótão da Matriz – que, mesmo nos anunciando como pesquisadores, tivemos entraves na visitação –, um Teatro Municipal inativo em mazelas a completar 100 anos, no ostracismo conceitual de suas necessidades – reforma ou restauro –, um pequeno casario que mantém suas fachadas, passinhos, alguns prédios da administração pública, duas igrejas – Matriz e Rosário –, as Lajes e mais alguns objetos e fenômenos – que se manifestam em determinados momentos do ano. Para além, temos consciência das narrativas que os envolvem? Ou, os visitantes conseguem acessar essas narrativas?
Não encaminharei a provocação para a preservação, por desconhecimento dos impasses, mas, sim, para a falta de constância de ações de pesquisa e difusão – que, ao fim, também pertencem à ordem da preservação –, ao ponto de muitas das narrativas, que compõem a memória e o imaginário popular, se perderem na oralidade por falta de manutenção. Em 2020, Edésio Lara elucidou desafios no texto “Investimentos em preservação do patrimônio cultural de Resende Costa”, publicado aqui no Jornal, apontando problemáticas como a educação patrimonial e o ICMS Cultural, que não sei, ao momento, se foram sanadas. Corroborando sua análise, reitero o imprescindível trabalho, de longa data, do Conselho de Patrimônio e destaco os historiadores independentes que registraram o possível, pois, sem eles, a crise memorial seria ainda mais aguda.
Na falta de investimentos formais em pesquisa e difusão, deixar tudo a cargo da memória é delicado. Sem sua manutenção, ainda mais. Ausente a comunhão das dimensões histórica e cultural aos fenômenos e objetos de suposta relevância, resta somente a etiqueta do antigo. Ao antigo, só há uma função: dar lugar ao novo. Sob o predatismo que permeia nossas relações, o novo tende a nos lançar para longe de nós mesmos. Se esta é a intenção, estamos vencendo.