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Sobre o capitalismo predatório no campo cultural resende-costense

29 de Abril de 2026, por Vinícius Oliveira

O que não falta são provas materiais do domínio de realizações estéticas inteiramente concebidas por inteligências artificiais em Resende Costa, seja no design gráfico, para eventos diversos, ou pré-visualizações de obras artístico-visuais públicas. Contudo, é especificamente uma realização dessas que me mobiliza a pensar: a música-tema do RC Folia 2026.

Qualquer ouvido mais atento deve ter notado a contradição da verossimilhança a um produto de estúdio, porém com uma mixagem das mais amadoras. Por que não contratar músicos e um produtor, competentes ao caso? Cogitei a falta de recursos, mas materialmente tudo me mostra o contrário. É evidente a boa vontade e consigo encadear as ideias que resultaram neste produto, mas este caso é sintomático de como boas intenções podem institucionalizar um arranjo ideológico que oferece risco ao campo cultural, se impensadas.

Alguns podem argumentar reacionarismo de minha parte. E sim, pode bem ser. Podem argumentar que as IAs são só ferramentas de máxima eficiência – utilização mínima de recursos e maximização dos resultados. “É o futuro”. Pois bem, sob esse eixo de pensamento, se a ênfase que daremos aos produtos culturais da região é a eficiência financeira e a maximização de resultados – ou lucro –, pergunto: por que não aposentamos o maquinário de madeira de mais de duzentos anos? Nossos teares não são os mais eficientes: precisa-se de uma linha de produção manufaturada, das teias, novelos, a, no mínimo, um operador por tear – que deve ser treinado no ofício –, e seu resultado é lento, frente às atuais tecnologias. Qualquer máquina automatizada de tecelagem compreenderia, com muito mais autoridade, a eficiência, certo?

Claro que torceremos o nariz a essa posição, visto que o tear consolidou seu nicho de mercado e, principalmente, aos discursos – por pena, recentes – que vislumbram suas dimensões cultural e identitária. Entretanto, ele é um ótimo objeto a se colocar em perspectiva.

A realização cultural não parte dos mesmos princípios de outro produto qualquer, apesar de haver pontos de contato, principalmente, tratando-se de mercado. A tecelagem artesanal é um ofício centenário e carrega consigo dimensões afetivas e familiares. O resende-costense se entende como tal a partir do corpo simbólico do tear. Um tapete, produzido hoje, é a materialidade de uma carga histórico-social impossível de ser contornada, apesar do capitalismo predatório na cidade mensurar seu valor equiparado ao seu preço, mal contabilizado por gastos materiais e tempo trabalhado.

Há algumas décadas, o ofício alcançou sucesso comercial, se estabeleceu como uma das principais atividades econômicas do município e, dadas suas potencialidades de mercado, foi confinado à lógica do capital: mínimo investimento e máximo lucro. Suas outras dimensões, para além da financeira, foram completamente esvaziadas. Paralelamente, o trabalho em tear foi precarizado – quando imposta a perspectiva industrial a um ofício manufaturado –, a tal ponto que, se o retorno financeiro ao tecelão é mínimo, não há nada mais no tear que atraia o imaginário de novas gerações.

Deste mal-estar sobre a tecelagem – que se estende à realização cultural no todo –, surgem diversas iniciativas com a constante “resgate”. Ora, por que resgatar algo que possui sucesso comercial e turístico? Isso reafirma que a realização cultural não é regida exclusivamente pelas premissas de mercado. A tecelagem existe e existirá enquanto conjunto simbólico que nos vincula em comunidade, não só por sua instrumentalização ao lucro.

Retornemos aos primeiros objetos citados: a música e as artes visuais. Pela dificuldade de caminhar para além da complementação de renda, nos contornos locais – exatamente por desmontes contínuos de espaços de atuação profissional –, ainda resistem ao esvaziamento pelo capital. Num cenário em que artistas e músicos são ignorados conscientemente em prol da eficiência, creio firmemente que, ainda assim, os encontraremos por aí. Agora, caso a tecelagem artesanal seja engolida por atividades industriais, pressentidas aqui e ali, sob o mesmo critério, nosso tear resistiria?

Essa é a urgência de se pensar cultura de forma dinâmica e conectada, de rever aparatos ideológicos que mais sabotam do que reforçam o campo cultural. Num dia, são artistas a perder espaço. No outro, é nosso principal ofício artesanal, sob a premissa da eficiência. Ao tardar, se esmaecerão fenômenos inteiros, definidores da nossa identidade.

É inaceitável um cenário de artistas sem atuação, tanto quanto nosso principal ofício artesanal distanciado de um imaginário mais amplo. Pelas limitações impostas aos agentes independentes, as instituições devem capitanear: nossas dimensões simbólicas se afirmam com pesquisa, difusão, constância de atividades e profissionalização do campo cultural. A figura de um tear numa arte de IA não eleva nossas particularidades: entre a cruz e a fé há um abismo. Não sejamos fariseus com nosso próprio objeto.

Comentários

  • Author

    Imaginemos apenas se os acendedores de lampiões tivessem obtido sucesso em silenciar Thomas Edson e Nikolai Tesla! Estaríamos no escuro até hoje. Novas ferramentas e novas ideias surgem, cabe a sociedade se adaptar, não censurar.


  • Author

    Boa tarde, Thales! Tudo bem? Não é minha intenção a exposição de uma relação de sobreposição tecnológica como essencialmente maléfica. A IA é materialmente uma ferramenta que aponta o futuro, não há sequer dúvidas disso. Minha exposição argumentativa é sobre o desmonte de postos profissionais, em alguns ramos da realização cultural, que lidam com outras dimensões para além do financeiro, ou da utilidade prática. Enquanto o artesanato tem políticas protetivas, outros setores carecem de atenção. O problema aqui jamais foi ou será as proezas tecnológicas das inteligências artificiais, mas, como sempre, o capitalismo. Grande abraço!


  • Author

    Abração Vinicius, o que você propõe? comunismo? socialismo? A historia nos ensinou o que ocorre com tais filosofias político-econômicas. O capitalismo é a única saída possível !


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