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Álbum de fotografias

14 de Marco de 2010, por Evaldo Balbino

Certa vez, numa noite alta, a lua era clara e benfazeja. Saí da Fazenda Quitéria com alguns primos e primas medrosos e fomos todos por uma trilha iluminada entre grotas e plantas raquíticas. Nosso destino era a fazenda Água Limpa, nome bonito e sugestivo. Temendo fantasmas, luzes estranhas na iminência de uma aparição, fomos conversando para espantar o medo. Para espantar aquilo que também desejávamos.

Fomos recebidos por dona Ester, uma anfitriã muito agradável. Não faltaram bolos de fubá e café da roça, com uma nata de leite tão clara e saborosa de fazer inveja à lua. Também não faltaram os fantasmas. E eram muitos! Ganhavam vida nas bocas que se abriam. Dona Ester os criava como quem dizia verdades. Um senhor tagarela, sentado numa poltrona ao canto da sala, movia seus lábios entre rugas infindas e histórias emaranhadas.

Num certo momento, a dona da casa se levantou, abriu um baú desses bem antigos e de lá retirou um velho álbum de fotografias. Todos manusearam aquelas páginas como namorados displicentes, os que olham o ser amado e não fixam o seu olhar. Manusearam-nas e as abandonaram sobre um aparador mais antigo que a vida.

Deixei-os entre histórias fantasmagóricas e casos de vidas alheias e olhadas, para ficar com meus fantasmas, com aquelas imagens cheias de vozes em minhas mãos. Peguei-as de sobre o móvel e era como se eu estivesse segurando todo um mundo. Pretérito, mas tão daquele momento em que o segurava.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... O poeta já dizia isso. Mas será sempre assim? Sinto que algo em mim não muda: o desejo de revisitar o passado. Por isso olho retratos como quem não quer nada. Olho, olho e olho. E talvez do meu olhar deduzam apenas um ato de curiosidade, um modo de passar o tempo diante de imagens idas, de outro tempo, um tempo alheio.

Não sabem, talvez, que somos escravos do tempo. Haveremos de nos saber presos a um presente sempre se esgotando. Sem futuro e sem passado, estamos aqui, neste agora, lendo e desejando o que se foi e o que ainda há de ser. É como se tudo existisse em prol do que somos. Assim poderei talvez dizer que não fui nem serei. Apenas sou.

Mas quão difícil é medir com régua e razão este ser que sou! Sei que se é, mas não sei dizer com exatidão sobre o ser. Esculturas não de barro, mas de areia, fomos e somos constantemente criados para levitar, mesmo com os pés no chão.

Pois assim, levitando, eu olhava entre as bordas dos retratos aquelas esculturas do passado. Homens, mulheres e crianças fixaram-se ali, num desejo de burlar o tempo, de dizer-lhe do seu pouco valor, de declarar-lhe, silenciosamente, a sua ineficácia perante as invenções humanas. E a nossa maior invenção foi, sem dúvida alguma, o sonho. O sonho grávido de desejos. Somos máquinas de devaneios.

As barbas longas do passado ainda eram vivas. Mãos ali paradas me diziam de afagos muitas vezes negados, de vontades de uma revisão da vida a fim de não se perder mais nenhuma oportunidade. Quantos beijos não dados! Quantos passeios esquecidos! Quantos movimentos num olhar despercebido da vida e agora tão sedento pela mesma! Um homem e uma mulher num abraço desnecessariamente acanhado. Dois amigos, ainda moleques, num sorriso gostoso de chorar! Dando-se os braços, permaneceram sentados sobre uma cerca de um curral amplo de gado e sonho. E os bois e as vacas com suas crias olhando para o fotógrafo. Ou melhor, para mim! Olhando-me e me dizendo de pastos, de noites ruminantes, de silêncios e mugidos amorosos.

Vi uma família reunida para sempre. A esposa num vestido excessivo, contida, séria, ao lado de um patriarca mais circunspecto ainda. Sob suas asas (de uma galinha grande e rígida), estavam os pintinhos a crescerem. Uma ninhada imensa, reunida ali como se faz uma igreja pronta para rezar. Nenhum abraço, nenhum afeto a se mostrar (e eu sei que ele existia, pois assim eu sonho). Nenhum amor a deflagrar-se naquelas poses decoradas para um retrato.

Vi também um rapaz triste. Olhos dizendo de mundos que ele não chegara a conhecer. Pernas paradas, mas sussurrando uma vontade imensa de partir, de pisar outras terras que não aquela a estender-se atrás de si para um horizonte infindável.

Os bustos se moviam em minhas mãos. Nas minhas amorosas, como eles. Vi todas aquelas vidas imorredouras, mãos e braços existindo. Rumores a dizerem que um retrato não é o lugar da ausência. Toda imagem, como as que construo, é um modo de se fazerem perenes o retratista e os retratados.

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