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As mortes de Michael Jackson

13 de Julho de 2009, por Evaldo Balbino

O recente episódio da morte do astro Michael Jackson fez com que se alastrassem, rapidamente, palavras e imagens sobre o artista. Não faltaram lamúrias e shows alimentados por uma mídia sempre sequiosa de espetáculos, não ao ar livre, porém na virtualidade dos meios de comunicação. Aliás, essa virtualidade midiática, maravilhosa em muitos aspectos, também não deixa de ser ridícula e, o que é pior, perigosa.

Não me proponho aqui a falar do cantor Jackson, mesmo porque estou longe de ser um crítico musical. Também não busco discorrer sobre a pessoa dele, que obviamente não conheço. Abster-me de falar do artista e da pessoa não me impede, entretanto, de guardar na memória aqueles videoclipes e aquelas danças e músicas que marcaram época. Se Thriller, como defendem os críticos, não foi o seu melhor trabalho em termos musicais, não deixou de arrastar multidões de espectadores extasiados com sua produção.

O que quero dizer é dos vários modos pelos quais matamos uma pessoa antes mesmo de ela “morrer definitivamente”, no sentido biológico da expressão. Quero dizer sobre o que há de humano em todos nós e de como devemos tomar cuidado com as imagens do astro veiculadas nos últimos 15 anos pelo mundo afora. O que se aplica também a quaisquer outras imagens que os discursos da mídia constroem.

Comentando, no Yahoo! Brasil, a morte do artista, o crítico musical Regis Tadeu reconhece a qualidade da múscia de Jackson produzida até o famoso Thriller. Apesar disso, não deixa de atacar: “todos choram pelo ‘antigo’ popstar, que gravou discos excepcionais, e não pela patética figura em que ele se transformou”. Ora, numa crítica que mistura o artista com a pessoa (essas duas sempre imagens construídas), é muito fácil utilizar termos como “patética figura”, “figura do cara”, “esquisitices”, “gosto pelo bizarro”, “nariz de massinha”, “brancura artificial” ou “zumbi do qual todo mundo ria e tirava sarro”. Verdade seja dita: Regis Tadeu questiona esse “mundo estranho”, onde as pessoas, que nos últimos quinzes anos vinham debochando da imagem bizarra veiculada pela mídia, são as mesmas que se “mostram comovidas com o seu falecimento”. Mas a voz do mesmo crítico ajuda a compor o coral desse “mundo estranho”. Basta atentarmo-nos aos seus próprios termos, quando nos diz da “patética figura em que [Michael] se transformou”.

Patética figura sim, a que nos foi ofertada em lautas bandejas durante anos. Tratou-se sempre de construções de uma mídia que sempre caminhava por fatos e conjecturas nem sempre provadas, tais como vaidade racista, vitiligo, lúpus, problemas pulmonares, dependência química, hipocondria, distúrbios emocionais, uma cegueira parcial do olho esquerdo, hemorragia gastrointestinal e, mais recentemente, câncer de pele. Isso sem falar nas acusações de pedofia, as quais levaram o cantor a um processo judicial que, por sua vez, também angariou a atenção do mundo. Chegou-se a afirmar na mídia, num tom de irresponsabilidade, que “graças a Deus temos menos um pedófilo no mundo”. Essa mesma voz, em relação ao primeiro suposto ou verídico caso de pedofia cometido pelo artista, defendeu que a inocência de uma criança deve ser respeitada. Com esta segunda afirmação eu concordo. Só acho que a família de uma “vítima”, quando aceita milhões e milhões para que o caso não chegue aos tribunais, está ela também desrespeitando a “inocência” de um dos seus membros, no caso o menor em questão.

Não que eu queira – insisto – defender a pessoa e o artista Michael Jackson. Coloco-me sim atento aos meandros dessas vozes que se utilizam de conturbadas vidas para “pintar” uma exdrúxula existência. E muitos de nós, fixados nas máscaras que nos chegam, adotamos inescrupulosamente o que nos dizem, sem nos preocuparmos com as tintas desse dizer. Essas tintas insistem em apagar todas a vidas em suas múltiplas fragilidades (físicas, psíquicas e sociais) e fazem julgamentos de imagens avulsas, quando pensam julgarem realidades nuas, cruas ou mesmo cruentas. A armadilha desse engodo é que talvez explique estas palavras do mesmo Regis Tadeu: “a partir de um determinado momento de sua conturbada vida, a música perdeu a importância. Jackson acreditou que seria eternamente adorado independente do que fizesse. E isso é uma sentença de morte – artística e até mesmo pessoal – para quem viveu a música com tamanha intensidade” (grifos meus).

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