Entrei no Cheirin Bão como quem atravessa um portal de Minas para o mundo. O nome – tão regional quanto universal – prometia o que cumpria: cafés especiais e delícias mineiras. Havia no ar o perfume morno do grão recém-moído, esse incenso profano que absolve a pressa e desacelera o pulso. As mesas e cadeiras de madeira, dispostas com o cuidado de quem prepara um colo, acolhiam visitantes; atrás do balcão lindamente ornado, garçonetes educadíssimas serviam com zelo e carícia, como se cada xícara fosse um gesto de afeto entregue em porcelana. Era um cenário de aconchego: a vitrine doce exibia brownies, empadas, mimos e pedacinhos de sabor; quitutes e confeitos sorriam como pequenas epifanias do açúcar. O ponto do café sussurrava: “sabor & prosa”, e eu acreditei.
Entre uma xícara e outra, ergui os olhos e encontrei as prateleiras. Ali, alternando-se com pacotes de café gourmet, xícaras de louça, pires de madeira e plantinhas de folhas verdes aprazíveis, os livros aguardavam leitores como quem espera amigos. Toquei um, depois outro, sentindo sob os dedos a promessa de mundos empilhados. Era como passear por universos silenciosos: Uma ética para o novo milênio, do Dalai Lama, oferecia bússolas para tempos desnorteados; O som e a fúria, de William Faulkner, pulsava como um coração indomável; A menina que roubava livros, de Markus Zusak, lembrava que a literatura é um furto consentido perante a morte; O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, abria janelas filosóficas; O castelo, de Franz Kafka, erguia muros invisíveis; O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati, ensinava a espera; 1984, de George Orwell, vigiava em silêncio; Madame Bovary, de Gustave Flaubert, suspirava seus desejos; Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello, buscava sentido; 20 poemas de amor e uma canção desesperada, de Pablo Neruda, ardia como café recém-passado.
Havia ainda conselhos para falar em público, códigos a decifrar, fundadores a imitar, receitas para viver sempre, prólogos que antecedem começos e um título que me piscou com intimidade: De um café ao outro. Pensei que, se cada mesa acolhia conversas apressadas, aquelas prateleiras acolhiam eternidades à espera de um par de olhos disponíveis.
Sentei-me com um livro aberto e um café fumegante. O desconforto me atravessou: café, letras e outras coisas mais; eu, porém, sem nenhuma companhia no gesto amoroso da leitura. Ao redor, risos, notificações, telas luminosas como pequenos sóis artificiais. Dedos deslizavam em superfícies lisas com a mesma delicadeza que raramente concediam às páginas. Não havia maldade em ninguém ao meu redor, apenas uma distração epidêmica – como se a vida precisasse caber no intervalo entre uma foto da xícara e a legenda espirituosa a ser postada nas redes sociais.
Li algumas páginas. O mundo de Sofia abriu perguntas como janelas; o som e a fúria ecoou no porcelanato; 1984 piscou no reflexo do vidro; Madame Bovary ajeitou o vestido na mesa ao lado. E eu ali, só, mas habitado por vozes que atravessam séculos. A solidão do leitor é um paradoxo fecundo: estamos sós para que muitos nos façam companhia. Cada frase é a mão estendida e amorosa do passado; cada capítulo, um quarto onde repousam inquietações humanas que ainda são nossas.
Doeu-me, sem acidez, perceber que os livros ali serviam apenas de ornamento para quase todos os clientes – plantas de papel que quase ninguém rega. Não peço fervor, nem que se abandone a conversa ou o doce ou a plataforma digital de interação virtual; peço apenas curiosidade. Um gesto mínimo: tocar a lombada, arriscar a primeira linha, permitir-se a demora. A leitura é um ato de resistência suave, um desacordo delicado com a pressa do mundo.
Quando terminei o último café, restava no fundo da xícara uma leve borra em forma de interrogação. Saí com o coração aquecido e uma melancolia mansa. No Cheirin Bão, as delícias são certas; a prosa, possível. A companhia, entretanto, é escolha — e exercício. Escolhi, mais uma vez, ser Cia. de mim mesmo entre goles e páginas, esperando que algum olhar vizinho descobrisse que, no ponto do café, também se serve eternidade. Porque, se é verdade que poucos se demoram nas letras, basta um leitor para que o mundo, por instantes, encontre abrigo.