Dona Adelaide era uma dessas professoras que não apenas ensinavam, mas regiam a turma como uma maestrina em meio a um vendaval. No quinto ano B, o barulho era som e mais que som: era uma entidade viva, um poltergeist feito de estojos caindo, fofocas sobre o recreio e o incessante arrastar de cadeiras.
O ar estava denso naquela tarde de terça-feira. A paciência de Adelaide, geralmente um elástico bem esticado, finalmente arrebentou. Nenhum brado professoral. O grito é para os fracos; o silêncio de Adelaide era o terror dos impúberes. Ela caminhou até o quadro negro, que na verdade era um “quadro verde” (nós e a mania antiga de derivarmos nossa expressão do inglês blackboard). Foi até a lousa com a solenidade de um carrasco e, com o giz rangendo como um dente faminto, escreveu em letras garrafais: CILÊNCIO!
– Já que vocês não sabem se comportar, vão aprender a escrever pela repetição – sentenciou ela, com um brilho quase poético nos olhos. – Cinquenta vezes no caderno! Não, quer saber? O arrependimento pede abundância. Cem vezes. Cada letra deve ser um tributo à paz que vocês têm me roubado. Ô, turminha difícil!!!
E assim, trinta cabecinhas se baixaram. O único som na sala era o vupt-vupt dos lápis (criança não podia e nem pode escrever com caneta) e o roçar da ponta no papel. O erro, ali no quadro, brilhava soberano. O “C” de Adelaide parecia uma foice ceifando a ortografia em nome da disciplina. Os meninos, hipnotizados pelo castigo, não questionaram. Se a autoridade máxima dizia que o silêncio agora tinha a curva de uma “casa” e não a elegância de um “sino”, quem seriam eles para duvidar?
O drama literário só ganhou seu quase epílogo à noite, na casa do pequeno Pedrinho. Sua mãe, examinando o caderno como quem busca provas de um crime, estancou diante do que vira.
– Pedrinho... que é isso? – perguntou a mãe, a voz oscilando entre o espanto e o pânico.
– É castigo, mãe. Cem vezes. Pra gente aprender a não fazer barulho.
– Mas meu filho... “silêncio” é com “s”!
– Não na escola, mãe. Na nossa turma, o silêncio mudou de letra.
No dia seguinte, a mãe – munida de um dicionário e uma coragem cívica invejável – foi à escola. Reuniu-se com a coordenação e, para surpresa geral, verificaram-se os outros cadernos. Era uma epidemia. Trinta cadernos, três mil vezes a palavra errada. A escola inteira estava mergulhada em um “silêncio” ortograficamente clandestino.
Dona Adelaide, chamada às pressas, entrou na sala com sua habitual altivez. Quando confrontada com o erro, não vacilou. Olhou para o caderno, olhou para a mãe e, com um humor fino que só os mestres possuem, soltou:
– Minha querida, o barulho era tanto, mas tanto, que o “s” saiu correndo de susto. Eu apenas acolhi o “c” que estava sobrando no estoque! Eu estava poetizando com os meninos.
Ou mal aceita foi a desculpa, ou então concordaram de fato com a professora, pois o assunto não rendeu mais nada.
Mas Adelaide era uma mulher de camadas. Dias depois, durante uma aula de matemática, o pequeno Juquinha, confuso diante de uma situação-problema que envolvia uma conta de divisão de laranjas para meninos gulosos e que parecia não ter fim, levantou a mão:
– Tia, esse problema aqui... a resolução dele é daquela mais grande ou daquela mais pequena?
O inspetor da escola, um homem de bigodes severos e olhos de águia, estava encostado no portal da porta, avaliando o desempenho pedagógico da sala. Adelaide sentiu o peso do cargo. O “erro” do aluno doía-lhe nos ouvidos como um acorde desafinado, mas a presença da autoridade exigia a perfeição que ela mesma, dias antes, ignorara no quadro.
Com um sorriso que misturava doçura e uma correção cirúrgica, ela pigarreou:
– Ora, Juquinha, meu bem... Não usamos “mais grande” nem “mais pequena”. O mundo é feito de grandezas relativas: ou o problema é maior, ou ele é menor.
O inspetor assentiu, satisfeito com a erudição da mestre. Juquinha, coitado, anotou a correção. Mal sabia ele que, no universo particular de dona Adelaide, a gramática era como a matemática: uma ciência exata, exceto quando o barulho era tão alto que até as letras precisavam mudar de roupa de tão atarantadas.
Adelaide voltou para sua mesa, vitoriosa. Naquela sala, os erros eram relativos, mas a autoridade – ah, essa era sempre maior.