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Declaração de amor

10 de Agosto de 2010, por Evaldo Balbino

Marcelo, marmelo, martelo. Eis o primeiro bonitão que tomou conta de mim há muito tempo.

Antes eu já conhecia aquele livro austero, capa preta, grosso, o título em letras douradas e bordas também. Aquele livro nas mãos dos adultos balançava diante dos meus olhos. Portador da voz de Deus. Uma voz feito trovão. Somente nas mãos de minha mãe é que ele brilhava. Um brilho estranho, um oráculo.

Naquele tempo eu não conhecia a palavra oráculo. Somente depois, muito depois, é que vim a conhecê-la. E também foi somente depois que pude devassar aquela portada preta, trilhar os caminhos de profetas e poetas, assustar-me com holocaustos para mim incompreensíveis, navegar sobre arcas, subir em montes onde uma voz imensa queimava sobre sarças ardentes. Somente depois é que pude entender que a lombada preta trazia sim relâmpagos e trovões. Sons terríveis mostrando-se no oriente e ecoando no ocidente. O ocidente de nossas vidas. Tempos depois, fui aprendendo que aquele livro preto trazia as palavras de Deus, mas também portava as loucuras dos homens, as vontades que estes tinham e têm de saber a verdade, de dizê-la, de possuí-la, de agarrá-la facilmente como fácil é amar-lhe a existência abstrata e longínqua.

Antes das bíblias, entretanto, minha intimidade verdadeira foi mais comezinha. Com a Ruth Rocha, o desbravador de palavras se achou importante. E a Bonequinha Preta? E o Bonequinho Doce? Tempos depois conheci Dona Alaíde Lisboa e vim a saber-lhe irmã da minha Henriqueta. Eu, menino querendo ser poeta, açulado pelas palavras, as terríveis e belíssimas palavras.

Quando certo dia caminhei pelo jardim em leilão, o jardim de Cecília, o jardim cujas ervas eram vocábulos se alastrando entre muros e lagartas e heras e uma estátua de primavera, quis ser eu um jardineiro, um plantador de palavras. Quando caminhei por esse jardim, meu retorno já era impossível. Como Teseu sem os fios de Ariadne, meus olhos e meu corpo já estavam num labirinto sem fim. Um labirinto feito de lábios vários, de várias vozes, de várias mãos escrevendo como se respira.

O meu jardim de palavras é um livro cultivado com esmero. Um grande livro que abarca todos os livros do mundo. Os escritos e os por escrever. Os imaginados e os que ainda não entraram em nenhuma imaginação. Os existentes e os de impossível existência. Livros-labirinto, com cipós entrelaçados em plantas, com árvores cujas raízes confundem-se nos séculos todos passados e ainda por vir.

Mas antes de serem jardins, os livros me eram e me são portas a se abrirem. Do outro lado, coisas proibidas insinuando-se, como corpos sensuais quase escondidos por véus diáfanos. Tecidos velando e revelando formas, contornos, geografias outras e a minha própria. Passar por essas portas requer uma senha, tão-somente uma: amar as letras. E nos amamos, elas e eu, cotidianamente. Sob lençóis lassos, somos corpos se atracando e se beijando: amantes voluptuosos e insaciáveis.

Porém todo amor tem contratempos. Descompassos entre um corpo e outro, uma dança quase perfeita. Os braços se querendo, os corações disparados, os olhos se penetrando como fios d’água infiltrando-se em terra seca nos dias de verão. Tudo sede e calor. Mas ao mesmo tempo uma dissonância. Um querer não querendo. Os desvios do amor e de amar. Vontades de dizer o que não se diz, de tocar o intocável. Palavras são matreiras. Femininas e másculas, têm trejeitos, volteios e vontades enormes. No palco que se abre em branco, elas usam máscaras sem formas. Ou melhor: elas são as próprias máscaras num baile de Carnaval. E sinto-me, entre marchas e músicas várias, o amante, um Dom Juan, uma Bela Adormecida às avessas, desejando o beijo a me ser dado.

Neste palco de lombadas e folhas e páginas, encontro-me e também me perco. Mesmo assim insisto em também construir essas portadas, os umbrais que me levam não ao Éden, mas a um infernal paraíso, a um jardim em que um deus caminha, onde a espada do anjo está sempre pronta para decepar.

Por que, então, publicar livros? Porque preciso deles. Desde não sei quando gostamos do que é físico. O que é a letra, senão esse corpo que tocamos? O nosso desejo pela coisa. Se não a temos, inventamos esse corpo outro, a nossa muleta que quer ser a própria coisa.

Na contramão das preocupações ecológicas, gosto muito de papéis. Sou uma traça às avessas. Vou tracejando papéis a ponto de ser roído por eles. Sou como aqueles vermes que em Machado repetem uma mesma cantilena: roendo sempre o roído, minhas palavras se perdem no labirinto do silêncio.

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